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“É um filme sobre solidariedade”, diz diretor de ‘Fortaleza Hotel’

Com direção de Armando Praça e protagonizado por Clebia Sousa, ‘Fortaleza Hotel’ fala sobre duas mulheres que se encontram no vazio de suas buscas

Matheus Mans   |  
28 de janeiro de 2022 17:42
- Atualizado em 30 de janeiro de 2022 09:47

Estreia dos cinemas desta semana, ‘Fortaleza Hotel’ é um filme que conta a história de duas forças opostas. De um lado, Pilar. Camareira do hotel que dá nome ao filme, ela quer mudar de vida. Para isso, está estudando inglês e juntando economias para morar na Irlanda. Já Shin é uma hóspede sul-coreana de meia idade, com um certo ar misterioso e de enigma, que veio ao Brasil com a árdua tarefa de levar o corpo de seu falecido marido de volta à Seul.

Pilar é fogo, é paixão, é desejo. Quer mudar, só não sabe como, já que a realidade se abate sobre ela. Shin é luto, é descoberta, é “azul”, é tristeza. As duas, assim, se encontram no sofrimento: uma precisou vir, a outra quer ir. São dificuldades que se abatem na realidade dessas duas mulheres que tentam driblar as dores da vida. O hotel é cenário primário, mas Fortaleza ganha ares internacionais conforme a produção se desenvolve e ganha mais corpo.

Shin e Pilar se encontram no vazio de movimentações distintas de suas vidas (Crédito: Divulgação/Vitrine)

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“É muito importante, no meu processo de direção, pegar o roteiro e saber sobre o que estou falando. E sabia, desde o começo, que este é um filme sobre solidariedade”, diz Armando Praça em entrevista ao Filmelier. “É uma história de duas pessoas muito diferentes: uma coreana e uma brasileira; uma mulher de classe média e outra mais pobre; uma mais velha e uma mais jovem; uma mulher vindo embora pro Brasil e outra indo embora do Brasil. São totalmente distintas uma da outra, mas por alguma razão elas se conectam e vão se afetar a partir do gesto de solidariedade”.

Praça e Clebia

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Ao contrário de ‘Greta’, primeiro longa-metragem de Praça, ‘Fortaleza Hotel’ não tem o roteiro escrito pelo cineasta cearense – e que, aqui, é assinado por Isadora Rodrigues (‘Contramão’) e pelo estreante Pedro Candido. No entanto, o cineasta não pensou duas vezes antes de colocar sua essência, e a do elenco, dentro dessa história de solidariedade.

Primeiramente, houve esse entendimento de qual era a temática do filme. “O que norteava ‘Greta’ era um sentimento de solidão. A história, as cenas, aquele personagem, os diálogos reverberavam esse sentimento”, comenta o diretor em entrevista. “Quando funciona com clareza, tenho noção do que estou tratando e de qual assunto estou querendo falar. Tudo fica mais fácil, seja a comunicação com equipe e elenco. Meu processo de direção precisa de clareza. Até quando faço uma cena que não é sobre solidão, preciso saber que o filme fala sobre isso. Quero traduzir esse sentimento”.

Depois disso, começou um processo de mergulho dentro daquelas realidade. Praça, para isso, viajou até a Coreia do Sul e começou a frequentar lugares e a imaginar o que Shin faria em seu país natal. Enquanto isso, Clebia Sousa mergulhou de cabeça e ajudou a criar características de Pilar – o cineasta cearense conta, inclusive, que decidiu colocar no roteiro uma fala da atriz, dita naturalmente em seu teste de elenco, de que sua palavra em inglês favorita era “sure”.

Clebia, conhecida por seu papel em ‘Bacurau‘, conta que seu primeiro desafio foi a barreira da língua. Afinal, sua personagem se comunica em inglês com a sul-coreana. “O inglês foi uma coisa que falei muito: ‘vocês têm certeza de que passei no teste? Eu não falo inglês'”, conta a atriz em entrevista ao Filmelier. “Mas a gente não ateve a apenas estudar o roteiro [em inglês]. A professora que me orientou tirou muitas travas da língua sem cair no mecânico”.

Além disso, a atriz viveu sua personagem fazendo laboratório e compreendendo melhor aquela dor, aquele vazio. “Fui entender quem é essa mulher e quais as mulheres que existiam nela. Quais espaços ela frequenta, com quem ela se relaciona? Fui conhecer as locações, a casa da Pilar, conversar com as pessoas. Fiquei dois dias entendendo como era ser camareira. Tive experiência”, conta a atriz natural de Recife. “O meu corpo precisava ser corpo daquela cidade”.

Entre ‘Fortaleza Hotel’ e Wong Kar-Wai

Nessa mistura de Armando Praça, Isadora Rodrigues, Pedro Candido, Clebia Sousa e Yeong-ran Lee, é curioso notar que nasceu um filme muito particular. Primeiramente, dialoga com ‘Greta’, esse primeiro filme de Praça: enquanto o longa-metragem com Marco Nanini é predominantemente masculino, ‘Fortaleza Hotel’ é feminino. Há trocas invisíveis entre Pedro, Pilar e Shin: os três estão perdidos em seus desejos e obrigações, buscando compreensão pessoal.

Cena de Fortaleza Hotel
Dança das duas protagonistas transpira cinema de Wong Kar-Wai (Crédito: Divulgação/Vitrine)

No entanto, é evidente a semelhança de ‘Fortaleza Hotel’ com o trabalho do cineasta Wong Kar-Wai. Uma cena de Shin e Pilar dançando tango, por exemplo, transpira as cores e os sentimentos do diretor responsável por filmes como ‘Amor à Flor da Pele‘ e ‘Amores Expressos‘. É referência, inspiração? Para Praça, essa semelhança surgiu naturalmente.

“A gente não buscou diretamente. O que aconteceu foi que fiz o processo de seleção de elenco em Seul e fiquei 15 dias por lá. Kar-Wai é chinês, mas é o oriente. Fui em cemitérios, em crematórios para entender como seria o processo e qual seria a diferença de lidar com a morte do marido da Shin em Seul e no Brasil”, contextualiza o cineasta. “Eu quis encontrar um ponto de intercessão entre Seul e Fortaleza, entre Pilar e Shin. Trouxe muitas referências da Coreia do Sul. E isso, de alguma maneira, trouxe Wong Kar-Wai e esse cinema asiática de uma maneira muito misteriosa”.

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