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Em ‘Benedetta’, Deus está no orgasmo

Em cartaz nos cinemas brasileiros, ‘Benedetta’ é outra produção digna de nota na filmografia do provocador cineasta holandês Paul Verhoeven

Lalo Ortega   |  
25 de janeiro de 2022 17:51
- Atualizado em 26 de janeiro de 2022 12:00

“Uma freira dá prazer sexual a outra usando um consolo feito com a imagem da Virgem Maria”. A mera descrição da cena, que acontece em algum momento da filmagem de ‘Benedetta’ – em cartaz nos cinemas brasileiros desde 13 de janeiro –, é por si só sacrílega o suficiente para provocar os gritos furiosos dos religiosos mais conservadores (não por menos, sua apresentação no Festival de Cinema de Nova York foi saudado por protestos de católicos e cartazes rejeitando o “filme lésbico blasfemo”).

No entanto, quem conhece a filmografia do cineasta Paul Verhoeven sabe que a profanação foi apenas mais uma ferramenta em um repertório que inclui ironia, paródias, kitsch delirante e violência estilizada quase ao grau de caricatura, a serviço do cinema, do aplauso ao ridículo.

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Afinal, este é o homem que zombou da corporocracia com ‘RoboCop: O Policial do Futuro’, que chocou o público com seu retrato de violência e sexo com ‘Instinto Selvagem’, e satirizou o militarismo intransigente da América com ‘Tropas Estelares’ (‘Starship Troopers’, em inglês).

As freiras católicas lésbicas eram apenas uma questão de tempo.

'Benedetta': o corpo não é o inimigo
Nada diz tanto “Paul Verhoeven” como um consolo feito da imagem Virgem Maria (Crédito: Divulgação/Imovision)

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E essas freiras são inspiradas em eventos históricos, documentados pela historiadora Judith C. Brown em seu livro ‘Atos Impuros: A Vida de uma Freira Lésbica na Itália da Renascença’, onde a protagonista é Benedetta Carlini, uma freira católica que viveu durante o século XVII em um convento de Pescia, enquanto a praga varria a Itália. Durante esse tempo, ela teve visões de Jesus e teve um relacionamento com a noviça Bartolomea Crivelli.

Em outras mãos, essa história teria se tornado um drama de época centrado em sua trágica protagonista e sua amante, algo que lembra ‘Carol’, de Todd Haynes. Mas do ponto de vista de Verhoeven, ‘Benedetta’ é um filme que alcança o complicado ato de equilíbrio entre drama e sátira, cujas aspirações estão longe de ser um retrato empático puro.

Afinal, que deliciosa ironia seria então usar a imagem da Virgem como um consolo?

“Esposa de Jesus”

Por mais irônico e até engraçado que seja, pode-se dizer que esse tipo de imagem blasfema tem um precedente que, na época, também despertou a ira dos conservadores. Para aqueles que ainda não viram, vamos apenas dizer que Regan MacNeil de ‘O Exorcista’ sabe algo sobre crucifixos, e vamos deixar por isso mesmo.

O clássico de terror de William Friedkin, lançado em 1973, foi sintomático de uma época de incerteza moral, em que o otimismo dos anos 1960 se desvaneceu para dar lugar ao cinismo e a ambiguidade. O mal, o diabo, teve origens abstratas, mas sua presença no mundo era inegável.

Poderíamos dizer que, em sua chave satírica, ‘Benedetta’ é também uma produção sintomática de seu tempo, em que a misoginia, a pedofilia e a homofobia giram em torno da igreja. É um filme que visa denunciar suas hipocrisias como árbitro moral, ao mesmo tempo em que reprime as mulheres (“seu corpo é seu inimigo”, diz uma freira à protagonista, ainda criança, em seu primeiro dia no convento ). “Não estamos vendendo cavalos”, repreende a reverenda madre (Charlotte Rampling) ao pai da menina, apesar de ela exigir um dote como quem lida com gado.

Porque ‘Benedetta’ é mais do que a curiosidade em torno do caso lésbico de sua protagonista (Virginie Efira), que se afirma diante de suas irmãs como “esposa de Jesus”, justificada por visões tão grandiosas quanto violentas e sacrílegas. Em uma, Jesus pede à freira para que ela tire sua roupa. Em outra, mais inocente, ele aparece para ela em uma colina como um pastor seguido de ovelhas, assim como Bartolomea (Daphne Patakia), filha de um fazendeiro, chega antes dela no convento.

'Benedetta': o corpo não é o inimigo
Não é Jesus, mas para Benedetta é uma semelhança razoável (Crédito: Divulgação/Imovision)

Uma das grandes falhas do filme é que as intenções da protagonista não são esclarecidas. Verhoeven deixa claro que as visões, pelo menos para ela, são bastante reais. No entanto, elas repercutem entre as irmãs dentro do convento, e perante a igreja fora dos seus muros, desencadeando também um conflito político eclesiástico, em que a jovem freira consegue ganhar o poder como reverenda madre. Por qual razão? É um pouco ambíguo.

No entanto, é nesse conflito que o roteiro (escrito a quatro mãos por Verhoeven e David Birke, seu co-roteirista em ‘Elle’) começa a expor a dinâmica de gênero na igreja. Quando uma das freiras tenta expor Benedetta como blasfemadora, ela é rapidamente silenciada pelos membros masculinos do clero, que determinam que sua promoção a Reverenda Madre é a vontade de Deus. Mas, “quem decide qual é a vontade de Deus?”, ela responde.

Em outras palavras, para as mulheres da Igreja Católica, o caminho é o da submissão e da resignação (ou, alternativamente, da morte) pelo dogmatismo, nunca o da decisão, do poder e da autoafirmação. Benedetta é a exceção porque a igreja permite isso para benefício próprio.

Mas o caminho da freira protagonista não é o do dogmatismo submisso. Desde os primeiros minutos, o filme deixa claro que sua inteligência precoce é comparável à sua devoção a Jesus. Suas visões e a influência de Bartolomea desafiam seu próprio conceito de castidade.

De repente, seu corpo não é mais seu inimigo, mas sua arma. A própria natureza da fé é questionada, pois sua ligação com a divindade deixa de ser dogmática (e ela, de fato, entende que a devoção das massas pode ser usada a seu favor). Pelo contrário, é o prazer que a conecta com seu Deus.

Benedetta e RoboCop entram em um bar…

A freira lésbica do século XVII e o robô policial da década de 1980 têm muito mais em comum do que ter sido dirigido por Paul Verhoeven. Ambos compartilham um tom satírico (evidentemente mais exagerado em ‘RoboCop’ do que em ‘Benedetta’), equilibrado com os aspectos mais dramáticos de suas respectivas premissas.

Mas em ambos os casos, esses elementos de sátira não têm medo de flertar perigosamente com a caricatura (e, no caso do clássico dos anos 1980, a hiperviolência é tão exagerada que é partes iguais de grotesco e caricatura). Aqui não alcançamos esses níveis de exploração visual no caso da violência, mas Verhoeven muda para nudez e sexo.

Não deveria ser surpreendente, dado que ‘Benedetta’ parece ter sido inspirado no subgênero “nunsploitation” (um nome que vem da combinação da palavra inglesa para freira e exploração). No entanto, em um filme que se propõe a denunciar a misoginia intrínseca da Igreja Católica, despir as mulheres à menor provocação é problemático e contraditório.

No mínimo, Verhoeven não enquadra suas protagonistas nus com a lascívia que aparece em ‘Instinto Selvagem’, mas se distancia o suficiente para que os atos sexuais, em vez de serem percebidos como exploração da morbidez em relação a eles, sejam retratos de mulheres que assumem seu autonomia e seu desejo.

Pode ser mais nudez do que o necessário, mas o excesso é uma das marcas de Verhoeven. E, quando se trata de atingir os ideais de decência defendidos por uma instituição tradicionalmente opressora, talvez o excesso seja a única resposta justa.

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Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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