O-Culpado

‘O Culpado’ mostra como as legendas ainda são uma barreira nos EUA

Filme da Netflix é o remake de um thriller tenso e elogiado da Dinamarca – que provavelmente acabará anulado e esquecido

Matheus Mans   |  
16 de setembro de 2021 11:03

Parece que foi há um século, mas faz apenas um ano e meio que ‘Parasita’ arrebatou o prêmio máximo do Oscar de 2020. Ainda não existia pandemia, tampouco a discussão de “novo normal”. Mas, naquele momento, criou-se um outro debate: será que os americanos enfim vão aceitar filmes estrangeiros? ‘O Culpado’, que estreia na Netflix em 1º de outubro, é mais uma mostra de que essa realidade dos filmes legendados em terras americanas ainda é distante.

Afinal, o longa-metragem exclusivo da Netflix e exibido no começo da semana no Festival de Toronto 2021 é o remake de um filme da Dinamarca, de 2018. Isso mesmo: precisou de apenas três anos para que ‘Culpa’ ganhasse uma versão americanizada. No lugar do protagonista Jakob Cedergren entra o astro Jake Gyllenhaal (‘O Abutre’, ‘Animais Noturnos’). Já na direção, assume Antoine Fuqua, de ‘Dia de Treinamento’ e ‘O Protetor’.

Além disso, como dito, o filme chega com exclusividade em todo mundo pela Netflix. Ou seja: bem mais alcance instantâneo do que o pequeno dinamarquês ‘Culpa’.

Entre os filmes

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No entanto, apesar dessas mudanças para deixá-lo mais com a cara dos Estados Unidos, quase nada realmente mudou. Só a casca foi trocada. Afinal, na essência, manteve a mesma história: um policial na central telefônica do 911 recebe a ligação de uma mulher desesperada. Segundo ela, o marido a sequestrou e os dois filhos estão em perigo. O personagem de Gyllenhaal, então, começa a agir para tentar salvar a mulher misteriosa.

O Culpado no Festival de Toronto
Jake Gyllenhaal é o astro de ‘O Culpado’, suspense que chega na Netflix em 1º de outubro (Crédito: Divulgação/Netflix)

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É a mesma situação, a mesma ligação, os mesmos personagens. Fuqua apenas muda algumas coisinhas aqui e ali como o diretor autoral que tenta ser. Coloca a situação das queimadas na Califórnia, que assolam o estado todo ano, como um impeditivo para que a polícia funcione bem. As cenas também são mais claras — enquanto isso, o filme dinamarquês aposta em uma fotografia mais escura, focando no rosto do protagonista.

Por fim, Fuqua arrisca algumas escapadas da proposta inicial do longa-metragem em construir toda a tensão apenas com telefonemas. Tem uma ou outra cena que mostra rapidamente algo que está acontecendo fora dos muros daquela central policial. Mas nada demais. Talvez isso teria sido diferente em outros tempos, já que ‘O Culpado’ foi todo gravado na pandemia, com enorme restrição de locação e elenco.

Ou seja: é como ‘Olhos da Justiça’ e ‘O Segredo dos Seus Olhos’, ‘Oldboy: Dias de Vingança’ e ‘Oldboy’ e por aí vai. São filmes que continuam com o mesmo começo, o mesmo desenvolvimento e o mesmo final. Só que é vendido como algo diferente, principalmente entre o público dos Estados Unidos, apenas por ser todo falado em inglês, dispensando a necessidade de legendas para os nativos da língua. É a refilmagem pela refilmagem.

E quem é o culpado?

Obviamente, não dá pra jogar toda a culpa do mundo no ombro dos americanos. O Brasil mesmo já produziu alguns remakes, como recentemente a comédia ‘Não se Aceitam Devoluções’ — que tem uma versão original mexicana. Mas, até certo ponto, tudo bem. Algumas histórias ficam melhor adaptadas para o gosto da cultura local e podem ganhar visões diferentes. Mas é difícil compreender a necessidade de uma refilmagem quando tudo é igual, menos os atores e a língua.

Passado um ano e meio desde que uma produção sul-coreana arrebatou o Oscar, prêmio máximo de Hollywood, pouco mudou. O “novo normal” não aconteceu. O “mundo de cinema maravilhoso” que aguardava os americanos fora de Hollywood, após desbravar “dois centímetros de legenda”, conforme disse o Bong Joon-ho nos seus agradecimentos, também não apareceu. A existência de ‘O Culpado’ mostra essa pedra no caminho.

O mais triste é que ‘O Culpado’ anula ‘Culpa’ — um pequeno filme dinamarquês, bem dirigido e atuado. Não faz sentido assistir a essas duas produções. Não se complementam, não são visões diferentes de uma mesma história. É a mesma coisa. E agora, com a distribuição global da Netflix do novo filme, há praticamente um sepultamento de ‘Culpa’, com distribuição limitada. E assim voltamos de novo nossos olhos aos EUA.

Ao invés de olharmos para novas culturas e conhecermos melhor nossas sociedades, ficamos presos nessa roda. Nos Estados Unidos, que tem essa preferência tão explícita por conteúdos não-legendados e há pouca cultura de filmes dublados, voltam-se para seus umbigos. O mundo praticamente se fecha, quase que intolerante. E isso não parece que vai mudar tão cedo com produções como ‘Druk‘ — também dinamarquesa — com refilmagem batendo à porta.

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