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‘O Peso do Talento’: a lenda do homem que se tornou seu próprio gênero

O novo filme do astro é, ao mesmo tempo, uma paródia e uma homenagem ao mito de Nicolas Cage

Lalo Ortega   |  
18 de maio de 2022 19:24
- Atualizado em 19 de maio de 2022 13:02

Nos minutos iniciais de ‘O Peso do Talento’, filme em cartaz nos cinemas brasileiros, vemos pela primeira vez Nicolas Cage como um de seus personagens mais icônicos. Maria (Katrin Vankova), filha de um político antidrogas, está em casa assistindo ao final de ‘Con Air: A Rota Da Fuga’. “Ele é uma maldita lenda”, diz ela enquanto a cena se desenrola na tela.

De certa forma, a conclusão do famoso filme de ação dos anos 90 é um grande expoente da lenda de Nicolas Cage. Não por causa de suas já infames “performances exageradas” (essa cena em particular não as tem), mas por causa do ridículo da coisa toda.

Nesse aspecto em ‘Con Air’, o personagem de Cage esteve em um voo de segurança máxima e boicotou o plano incompreensível do chefe do crime, explodindo metade da Las Vegas Strip no processo. Depois de tudo isso, ele entrega à filha (que encontra pela primeira vez) o coelhinho de pelúcia mutilado que comprou para ela na prisão. Cage encena com as características de um homem de ação e a ternura de um trágico melodrama familiar. É ridículo, mas “muito Nicolas Cage”.

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Como escrevemos antes, esses tipos de personagens são fundamentais para o mito de Cage, construído sobre a tensão que existe entre um ator que divide opiniões (embora nunca deixe ninguém indiferente) e que parece aceitar papéis em qualquer coisa que tenha algo remotamente semelhante em seu roteiro; e uma imagem pública definida pela excentricidade e excesso de suas glórias anteriores.

O Peso do Talento
O coração de ‘O Peso do Talento’ está na relação entre Nick Cage e Javi Gutiérrez (Crédito: Divulgação/Paris Filmes)

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‘O Peso do Talento’ pode estrelar o lendário ator como ele mesmo, mas na realidade é um filme que empresta seu mito para outra coisa. Não é uma apologia, um acerto de contas, muito menos uma desconstrução, mas existe no lugar aparentemente contraditório entre paródia e homenagem.

Então, quando conhecemos Nick Cage (Cage), se trata de um ator lutando para voltar ao topo (“não é como se tivéssemos ido a lugar nenhum”, ele repete para si mesmo), enquanto lida com as consequências de seus excessos e sua obsessão profissional: ele está com dívidas até o pescoço, e seu relacionamento com sua ex fictícia (Sharon Horgan) e sua filha fictícia (Lily Sheen) está na corda bamba.

Quando o papel que poderia colocar sua carreira de volta nos trilhos escapa de suas mãos, Nick aceita um trabalho medíocre: participar da festa de aniversário de um fã milionário dele, Javi Gutiérrez (Pedro Pascal) na ilha de Maiorca, em troca de um milhão de dólares.

Para sua surpresa, eles acabam se dando bem por causa de seu amor mútuo por ‘O Gabinete do Dr. Caligari’ e ‘Paddington 2’, mas tudo muda quando Cage é inesperadamente pego por dois agentes da CIA (Ike Barinholtz e Tiffany Haddish), que o informam que Javi é um chefe do tráfico de drogas e que ele sequestrou Maria, então é seu dever ajudá-los a salvá-la.

No papel, a premissa de ‘O Peso do Talento’ é tão absurdamente bizarra e metafórica que só poderia se encaixar na classificação singular “cageiana”. Mas na prática, embora seja engraçado, a execução é mais dispersa, menos contundente e nem de longe tão ambiciosa quanto o alcance de atuação de seu protagonista.

‘O Peso do Talento’: mais uma buddy comedy

Como já foi dito, este filme toma o mito de Cage como ponto de partida para outra coisa, e isso é simplesmente para nos apresentar uma buddy comedy (comédia de amigos, em tradução livre). O interessante é a mistura de gêneros e referências usadas pelo diretor Tom Gormican.

Ao longo de suas filmagens, ‘O Peso do Talento’ começa sua jornada como uma paródia auto-referencial de Hollywood, em algum lugar entre ‘Quero Ser John Malkovich’ e ‘O Último Mercenário’ de Jean-Claude Van Damme (embora muito mais próximo deste último). Por algumas cenas, ele se transforma na versão chapada de ‘Antes do Amanhecer’, finalmente deixando-se entrar diretamente no reino de ‘Máquina Mortífera’.

O roteiro traça uma progressão interessante para seus personagens ao longo do caminho. Nick Cage deve conciliar a tensão interna entre seu desejo de crescer como um homem de família e sua obsessão por “voltar ao topo” de Hollywood. Ela é personificada como “Nicky”, uma versão digitalmente rejuvenescida de Cage baseada em sua infame aparição no programa ‘Wogan’, nos anos 90.

O fio condutor de ‘O Peso do Talento’ é a sua mudança de relacionamento com Javi, a quem Nick primeiro vê como um fã dedicado de sua filmografia, a um amigo e depois a alguém que ele deve trair.

O relacionamento evolui para além disso, embora seja melhor não dar spoiler. Mas uma coisa deve ser notada: é raro que, em um filme onde o bombástico Nicolas Cage interpreta Nicolas Cage, seja Pedro Pascal quem roube a cena. E aí está o charme e a grande falha de ‘O Peso do Talento’: é um filme sobre esses dois personagens (o que em si não é ruim), mas tenta se apresentar como o filme mais “cageiano” da história, mesmo que esteja longe disso.

A insuportável contradição de Nicolas Cage

O “cageiano” é um delicado equilíbrio entre o drama fino e o exagero, entre a seriedade e os gritos primitivos à beira da alucinação (talvez só David Lynch soubesse tirar vantagem disso). É o absurdo de um homem que jura vingança por sua esposa, mas tem que enfrentar demônios motoqueiros do inferno em um duelo psicodélico de motosserra. São três segundos das gloriosas madeixas de Cage em meio a toda a loucura ‘Con Air’.

‘O Peso do Talento’ não é “cageiano” no final das contas, porque realmente não tenta. Seu título original (que, traduzido diretamente para o português, seria ‘O Peso Insuportável do Talento Massivo’) traz consigo uma promessa de ridículo delirante, mas não cumpre. Não é uma exploração do processo criativo de Nicolas Cage (que certamente deve ser fascinante), nem das vicissitudes de sua imagem pública. É simplesmente uma comédia de amigos feita às suas custas.

O Peso do Talento
Dada a sua premissa, ‘O Peso do Talento’ deveria desabrochar Cage, mas raramente o permite (Crédito: Divulgação/Paris Filmes)

No cânone do ator, um filme mais ambicioso sobre o peso insuportável da criação artística é ‘Adaptação’, em que o ator interpreta uma versão fictícia do próprio roteirista, Charlie Kaufman. Impossível não pensar nele quando aqui temos Nicolas Cage novamente em um duplo papel (Kaufman também escreveu o já citado ‘Quero Ser John Malkovich’, que faz um trabalho brilhante com a desconstrução do ator e do mundo do entretenimento por meio da nossa obsessão coletiva pelo estrelato).

Desprovido dessas aspirações artísticas e sem levar seu protagonista aos limites consideráveis ​​de atuação, ‘O Peso do Talento’ é simplesmente uma comédia divertida. Um tão codificado pela lenda de Nicolas Cage, que apenas seus fãs mais leais vão tirar o máximo proveito dele.

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Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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