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Pela primeira vez na história, Oscar passa a aceitar filmes lançados direto no streaming

Pandemia da covid-19 derruba, temporariamente, uma exigência de mais de 90 anos

28 de abril de 2020 19:49
- Atualizado em 17 de junho de 2020 12:06

Um tabu histórico vai cair em 2021 – e é tudo resultado da pandemia do novo coronavírus. Com os cinemas fechados em boa parte do mundo e sem saber exatamente quando vão reabrir, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou nesta terça (28) que revogou, temporariamente, a obrigatoriedade dos filmes que disputam Oscar sejam exibidos em salas de Los Angeles.

A regra, polêmica na visão de alguns, obriga que os longas-metragens sejam exibidos primeiro (ou de forma simultânea com outras mídias) por sete dias seguidos, com sessões em horário nobre, em cinemas do condado de LA até 31 de dezembro para serem elegíveis a uma indicação na premiação no ano seguinte.

Acontece que mesmo que os cinemas voltem em algum momento no segundo semestre, é difícil imaginar que haja sessões para todos as produções que almejam uma estatueta em 2021 – ou, ainda, que os distribuidores consigam segurar as pontas sem uma fonte de receita até lá.

Bong Joon Ho recebendo um dos quatro Oscar por ‘Parasita’, o melhor filme em 2020 (crédito: divulgação / AMPAS)

Em comunicado oficial, a Academia avisou que “até segunda ordem, e apenas para o ano da 92ª edição da premiação, filmes que antes planejavam um lançamento nos cinemas e foram inicialmente lançados em streaming comercial ou serviço de VOD podem se qualificar […] desde que […] se encaixem em todos os outros requerimentos de elegibilidade”.

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“No dia a ser determinado pela Academia, e quando os cinemas reabrirem de acordo com as indicações dos governos federal, estadual e local, essas regras de exceção não terão mais efeito”, continuou o comunicado.

Paradigma quebrado

Acontece, há alguns anos, um grande embate de forças nos bastidores de Hollywood. Um lado, defendido pela Netflix, vê cinema como um formato, que pode ser atingido a partir de uma estética e/ou de investimentos pré-definidos, não importante em qual mídia a produção é lançada primeiro.

Já o outro lado, do qual temos representantes como Steven Spielberg e Festival de Cannes, vê o cinema como uma experiência que só pode ser alcançada por meio do lançamento tradicional, com a projeção em um auditório escuro. A Academia, até hoje, esteve deste lado do ringue – inclusive exigindo critérios técnicos para definir como um filme deve ser projetado, além de estipular o lançamento de uma semana nos cinemas de Los Angeles. Nessa linha de pensamento, filmes que estreiam diretamente no video on demand são televisão, e não cinema.

Mudanças na regra foram analisadas anteriormente pela Academia, que sempre rechaçou. Por isso, a Netflix modificou a sua estratégia de lançamento – passando a disponibilizar filmes como ‘O Irlandês‘, ‘História de um Casamento‘ e ‘Dois Papas‘ nos cinemas tradicionais para poder concorrer (e ganhar) estatuetas.

‘O Irlandês’, uma das apostas da Netflix para o Oscar 2020, foi lançado nos cinemas antes de chegar ao streaming (crédito: divulgação / Netflix)

“Na verdade, uma vez que você está comprometido com o formato de televisão, você é um filme de TV”, disse Spielberg em uma entrevista ao ITV News, em 2018. Na época, ele ressaltou: os longas-metragens da Netflix “merecem um Emmy, mas não um Oscar”. Emmy é a maior premiação da telinha, que também premia filmes para o formato. 

Na mudança das regras, o Oscar deixa claro que não houve uma modificação nessa mentalidade. “A Academia firmemente acredita que não há experiência maior para a magia dos filmes do que assistir em um cinema. Nosso compromisso com isso está inalterado e inabalado”, explicaram David Rubin, que é presidente da Academia, e Dawn Hudson, o CEO, no comunicado divulgado nesta terça. “No entanto, a pandemia historicamente trágica da covid-19 exige essa exceção temporária às nossas regras de elegibilidade para prêmios.”

Resta saber, no futuro, se esta brecha servirá de arma para os gigantes no streaming conseguirem mudanças mais duradoras…

Mais mudanças

Outras modificações na regra, importantes, foram comunicados junto do afrouxamento da elegibilidade. A partir do próximo ano, as categorias de Mixagem de Som e Edição de Som serão combinadas em uma única, de Melhor Som – “enfatizando o esforço em equipe”.

Já a categoria de Melhor Filme Internacional, ex-Filme Estrangeiro, passa a contar com votos de todos os membros da Academia na rodada preliminar – que assistirão aos longas selecionados por quase todos os países do mundo na plataforma de streaming interna da organização. Antes, a rodada inicial de votação era feita por um pequeno grupo, que destacava uma “short list” para que, aí sim, os outros membros da Academia pudessem votar para escolherem os indicados.

Por fim, na categoria de Trilha Original, será necessário que no mínimo 60% das canções sejam inéditas para se qualificar a uma indicação. No caso de sequências, a exigência sobe para 80%.