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“É complicado falar sobre desejo no corpo da mulher”, diz diretora de ‘Regra 34’

‘Regra 34’ fala sobre uma estudante de direito que trabalha pela segurança das mulheres e, ao mesmo tempo, é adepta do sadomasoquismo

Matheus Mans   |  
23 de janeiro de 2023 19:00

Você pode até não ter ouvido falar tanto quanto ‘Marte Um‘ ou ‘Carvão‘, mas o drama nacional ‘Regra 34’ foi uma das produções brasileiras mais premiadas em 2022. Afinal, venceu o prêmio máximo de Locarno, além de outros dois festivais menores. É uma boa trajetória para um filme pequeno, mas que traz algumas discussões espinhosas. No Brasil, está em cartaz nos cinemas brasileiros desde a última quinta-feira, 19. Você pode comprar ingressos do filme aqui.

Dirigido por Júlia Murat (‘Pendular’), o longa-metragem fala sobre a história de Simone, uma estudante de direito penal que defende os direitos das mulheres e, à noite se apresenta em frente a uma câmera de sexo ao vivo. Porém, ela começa a entrar num profundo conflito quando começa a experimentar sadomasoquismo e ir contra suas crenças.

Sol Miranda é a protagonista de ‘Regra 34’: entre as violências (Crédito: Imovision)

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Essa é, basicamente, toda a tônica do filme. Uma mulher em conflito que, durante o dia, defende as mulheres dos mais diversos tipos de abusos, enquanto entre quatro paredes sente prazer ao sentir a violência em sua pele. É um filme que busca questionar não só a violência contra o corpo da mulher, como também levar um olhar de independência à elas.

“‘Regra 34’ começou como um filme de sexualidade, sobre uma mulher descobrindo seus desejos. Quando começo a roteirizar a história, percebo que é muito delicado falar sobre isso, no Brasil, sem contextualizar as consequências do desejo pela violência no corpo dessa mulher”, diz a diretora do filme ao Filmelier. “É complicado falar sobre desejo no corpo da mulher, ainda mais um desejo de violência em um dos países que mais registra violência contra a mulher”.

‘Regra 34’: Entre dois tabus

Com isso, mais do que ser uma história sobre uma mulher com desejo pelo sadomasoquismo, o filme se vale desses conflitos para avançar. Funciona tudo de uma maneira bem similar, o tempo todo: Simone vai para a faculdade, participa de discussões sobre papel da mulher e outras coisas do tipo, depois vai pra casa. Nesse momento, às vezes ela transa com alguém, se apresenta em sites de camgirls ou, então, começa a experimentar o masoquismo.

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É, infelizmente, uma história que fica andando em círculos. Vai pra lá e pra cá, sempre seguindo o mesmo caminho de tentar mostrar contradições, mas sempre apostando na mesmice. Acaba se tornando consideravelmente cansativo. Além disso, dá para questionar bastante essa dicotomia: será que realmente é algo a ser considerado, é algo que pode causar esse tipo de reflexão? Acaba caindo no vazio, perdendo um pouco a força da proposta da lógica narrativa.

Pelo menos ‘Regra 34’ tem um ponto positivo que não dá pra discutir: a atuação marcante de Sol Miranda. A atriz faz sua estreia nos cinemas com o longa e entrega uma performance que chama a atenção: mergulha e se entrega.

“É o meu primeiro projeto. Saí de casa aos 17 anos para ser atriz e ter agora, esse reconhecimento, é uma honra”, diz a protagonista de ‘Regra 34’ ao Filmelier. “A forma como esse filme foi conduzido ressalta a importância desse filme. Vai além do reconhecimento individual, inclusive, mas também como um projeto político. É um produto audiovisual que está falando sobre a potência do audiovisual brasileiro e falamos sobre algo muito maior: as artes brasileiras”.

Lugar de fala

Outro ponto que exige atenção no longa-metragem tem a ver com um termo usado cada vez mais, muitas vezes gratuitamente, mas que aqui faz sentido: lugar de fala. Júlia Murat, como admitiu na coletiva de ‘Regra 34’, é privilegiada. Branca, de classe média, filha de cineasta. O filme, porém, fala sobre o corpo preto no meio de uma situação de violência em que questiona, também, outras questões de violência — algo que diz às mulheres pretas.

Como, então, Júlia consegue compreender isso, se despir de preconceitos e dirigir uma história especificamente sobre o tema? “Pela questão da negritude, tive que ter um espaço de aprendizado. Não só com Sol e outra parte do elenco, mas também estudando. Era ler, sentar e entender. O filme é um processo de pensamento a partir de ‘Pendular’, em 2017”, disse Júlia, ao ser questionada sobre isso. “‘Regra 34’ é um espaço de diálogo. Não é um filme preto, tampouco branco. É uma tentativa de diálogo. Por isso não é só elenco negro ou branco. Ele é sobre o encontro de diálogos”.

‘Regra 34’ já está em cartaz nos cinemas. Clique aqui para comprar ingressos.

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