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‘Babilônia’: o belo império construído sobre a merda

Com ‘Babilônia’, o diretor de ‘La la Land’ entrega um filme que é igual a ‘Cantando na Chuva’, ‘Crepúsculo de uma Estrela’ e ‘O Poderoso Chefão’

Lalo Ortega   |  
19 de janeiro de 2023 21:53

A primeira cena de ‘Babilônia‘ – nos cinemas desde 19 de janeiro – é um curioso fragmento que, apesar de sua modesta proporção em relação ao restante da filmagem, conseguiu sintetizar toda a sua essência.

Manuel “Manny” Torres (Diego Calva), um imigrante mexicano em Hollywood, recebe a tarefa ingrata de conduzir um elefante até a mansão de um executivo de cinema no topo de uma colina sem a ajuda de uma caminhonete (projetada para transportar cavalos) e um trabalhador. O caso termina em uma cascata catastrófica, mas isso é tudo para as opulentas indulgências da Hollywood dos anos 1920.

Porque, apesar de seu tamanho espetacular – e da impossibilidade de transportá-lo-, o animal nada mais é do que um elemento de algo muito maior: é a sobremesa de uma bacanal de dança, álcool, cocaína, sexo e outros excessos com a presença de cantores, dançarinos, músicos e lendas de Hollywood como Jack Conrad (Brad Pitt). Na maré do declínio está Nellie LaRoy (Margot Robbie), uma jovem que sonha em ser uma estrela.

Manny, que a ajuda a entrar na festa, confidencia a ela o sonho compartilhado de ingressar na indústria que cria os sonhos das massas no início do século XX. “Eu sempre quis fazer parte de algo maior. Algo que dura, que significa algo”. Sentimento, aparentemente, compartilhado pelo próprio diretor do filme, Damien Chazelle (vencedor do Oscar de Melhor Diretor por ‘La la Land‘).

‘Babilônia’: as indulgências de Hollywood (e de Chazelle)

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Esta longa sequência de abertura é ao mesmo tempo uma das conquistas mais eloquentes e indulgentes de Chazelle, enquanto ele aborda diretamente o cânone de uma indústria apaixonada por si mesma, buscando um lugar à direita de Billy Wilder e Stanley Donen. A câmera sobrevoa a dança, os gritos, as orgias, registrando um a um os personagens, seus vínculos com os outros e suas motivações.

É uma sequência que lembra o casamento inicial de ‘O Poderoso Chefão‘ por suas duas funções. Por um lado, retrata os excessos flagrantes que eram o pão e circo do início de Hollywood, o hedonismo crasso e o materialismo em que suas estrelas se entregavam, e pelo qual o filme recebeu metaforicamente o nome da capital de outro império outrora majestoso e decadente.

Brad Pitt encarna o ator clássico de Hollywood deslocado pelos filmes falados (Crédito: Paramount Pictures)

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Por outro lado, vemos as rachaduras nos sonhos inocentes e nas imagens bem-sucedidas de seus protagonistas. Eles vêm de famílias problemáticas, seus casamentos sofrem e, como veremos pouco tempo depois, eles são bucha de canhão em uma indústria que marcha impassivelmente para o futuro, nunca olhando para trás. Eles estão condenados a sucumbir às suas tentações, ser esquecidos e, como Babilônia, ser cruelmente punidos por Deus.

Nesse sentido, assim como ‘Cantando na Chuva‘, de Stanley Donen, fez na época, ‘Babilônia’ funciona como uma aula de história do cinema: ‘O Cantor de Jazz’ e o som sincronizado mudam tudo para sempre em Hollywood. A ascensão do conservadorismo, aproveitando os constantes escândalos da indústria, estabeleceu o código Hays, fechando as portas para mais atores na busca de reformar sua imagem.

Chazelle – roteirista e também diretor – dá rédea solta aos seus próprios excessos, com múltiplas cenas que ilustram essas mudanças frenéticas da indústria de forma lúdica, embora demorando muito mais do que o necessário em vários momentos. O cineasta não se preocupa tanto em oferecer uma perspectiva crítica, mas também não é inteiramente celebrativo do passado.

Com ‘Babilônia’, o diretor revisita o caminho já percorrido por Donen, diminuindo seu kitsch e oferecendo, em vez disso, um retrato mais frontal dos anos 20 selvagens e seus excessos. Em sua sequência, descobrimos que Chazelle oferece algo mais triste, semelhante ao ‘Crepúsculo dos Deuses‘, de Billy Wilder.

Dito isto, apesar da riqueza de suas influências óbvias, às vezes o diretor pula em tal frenesi que é difícil desenvolver todos os seus personagens para realmente simpatizar. É claro que os protagonistas são Pitt, Robbie e Calva, mas parece que Chazelle queria o mesmo grau de conexão com outros dois personagens principais: a cantora de cabaré Lady Fay Zhu (Li Jun Li) e o trompetista de jazz Sidney Palmer (Jovan Adepo). Porém, acabam se perdendo no caos e se tornando acessórios.

Há um elemento de romance em ‘Babilônia’ que não está totalmente desenvolvido (Crédito: Paramount Pictures)

Mas uma coisa em que ‘Babilônia’ é ótimo é nos apresentar a Hollywood como o mundo claro-escuro que era e ainda é. Mostra-nos como o império dos sonhos, belo para tantos de nós e habitado por estrelas imortais, é construído sobre uma maré de vícios, egos e um progresso que não tem piedade de ninguém.

Porque um elefante em uma festa é tão fascinante e emocionante quanto estranhamente bonito. Mas aquele elefante não chegou ao topo do morro sem deixar muita, muita merda pelo caminho.

O cinema vai ficar bem?

Um dos temas de ‘Babilônia’ é o deslocamento do velho – tecnologia, artistas, paradigmas – em nome do progresso, do novo. Os falados deslocaram o mudo e, com ele, velhas estrelas foram deixadas na rua.

O cineasta e historiador Mark Cousins ​​​​diz que a história do cinema é a história da inovação. A um século da era retratada em ‘Babilônia’, nem é preciso dizer: desde então, assistimos ao surgimento do cinema colorido, do cinemascópio, da tela verde, das câmeras digitais, do 3D, da animação digital, da captura de movimento e da produção virtual.

Vale guardar a surpresa do final, mas basta comentar que Chazelle parece nos dizer que, independente das transformações que vierem, o cinema vai dar certo. A tela pode ser maior, as imagens nela podem ter sido criadas de forma diferente, mas ainda haverá a experiência de sentar em um quarto escuro e se emocionar juntos… certo?

Então, ‘Babilônia’ foi lançado nos Estados Unidos em dezembro de 2022, tornando-se um dos maiores fracassos de bilheteria do ano (no momento em que escrevo, está chegando a US$ 15 milhões, de acordo com o Box Office Mojo). Enquanto ‘Avatar: O Caminho da Água’ (cujo tempo de execução é quase idêntico) continua a dominar as bilheterias, o filme de um cineasta vencedor do Oscar está lutando para recuperar seu investimento.

O fato ecoa o que aconteceu no final de 2021, quando um determinado filme do Homem-Aranha monopolizou toda a bilheteria, deixando cineastas como Guillermo del Toro e Lana Wachowski com as sobras. O cinema vai ficar bem? Talvez sim, mas quem sabe para quantos cineastas.

“Não devemos atrapalhar o progresso”, diz melancolicamente o personagem de Brad Pitt. Resta saber como será esse progresso para o nosso cinema. Vamos apenas esperar que haja mais espaço para filmes como ‘Babilônia’.

‘Babilônia’ já está em cartaz no Brasil. Para saber mais sobre o filme e comprar ingressos, clique aqui.

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