Ron Bugado

‘Ron Bugado’ toca nas feridas do bullying e da hiperdependência tecnológica

O Filmelier entrevista Sophia Abrahão, Sérgio Malheiros, Marcelo Serrado e dois dos artistas que trabalharam em ‘Ron Bugado’, animação que acaba de chegar aos cinemas

22 de outubro de 2021 18:22
- Atualizado em 25 de outubro de 2021 17:29

Nenhuma criança é igual a outra. Porém, algumas, por não se enquadrarem naquilo que os coleguinhas veem como “normal” ou por não poderem ter o (caro) produto do momento, acabam sofrendo bullying por essas diferenças, sendo excluídas das rodas de amigos. Isolados. Resta então renegar quem são para, de alguma forma, se enquadrar naquilo que o ambiente dita – uma trajetória que não é natural e, por isso, causa sofrimento.

Esse é o enredo básico de ‘Ron Bugado’, filme da 20th Century Studios e da Locksmith Animation que chegou ontem, 21, exclusivamente aos cinemas brasileiros. O nome do personagem que passa por isso no longa-metragem é Barney, mas poderia ser João, Pedro, Maria, Bianca, Renan. Pode ter sido você. Fui eu.

“[Bullying] É um troço difícil, né? Porque acontece. Eu não fui especificamente um alvo, mas tem gente que você fica preocupado. E você vê algumas pessoas sofrendo por causa disso, também”, conta Carlos Lutterbach, artista brasileiro que trabalhou nos storyboards da nova animação, em entrevista exclusiva ao Filmelier.

Ron e Barney: a amizade construída em Ron Bugado (Crédito: divulgação / 20th Century Studios)
Ron e Barney: a amizade construída em ‘Ron Bugado’ (Crédito: divulgação / 20th Century Studios)

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Na animação, Barney (Jack Dylan Grazer no elenco de vozes originais) é um filho de imigrantes russos que, por vir de uma cultura diferente e de uma família simples, acaba fora do círculo de amizades quando essas diferenças se tornam mais claras. A situação piora quando, um dia, a poderosa Bubble Inc. lança o B-bot, o melhor amigo eletrônico de todas as crianças e 100% conectado à internet.

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Barney é o único de toda a escola a ficar sem um.

A partir daí, vemos o empenho de um pai zeloso em busca de dar o robô para o filho – que consegue o objeto de desejo, mas é um modelo defeituoso, sem conexão com a internet. O brinquedo é batizado de Ron (voz de Zack Galifianakis em inglês) e vira mais um motivo para chacota entre as outras crianças, que, a essa altura, vivem uma vida online que mais aliena do que integra, servindo aos escrúpulos de uma organização que perdeu a sua essência.

Resta a Barney, agora, encontrar uma forma de se reconectar com os outros (e consigo mesmo) pelo que ele realmente é.

“O Barney não é um personagem convencional, ele tem quase um bloqueio social de fazer amizades. O Ron, o próprio nome do filme já diz, ele é bugado. Então ele é um robô diferente. A gente fala da inclusão social, do diferente”, explica a atriz Sophia Abrahão (da versão cinematográfica de ‘Confissões de Adolescente’ e de novelas globais como ‘Amor à Vida’), que faz parte do elenco da dublagem brasileira de ‘Ron Bugado’.

Os atores - e, agora, dubladores - Sophia Abrahão, Sergio Malheiros e Marcelo Serrado em entrevista ao Filmelier (Crédito: Filmelier)
Os atores – e, agora, dubladores – Sophia Abrahão, Sérgio Malheiros e Marcelo Serrado em entrevista ao Filmelier (Crédito: Filmelier)

“Durante o filme a gente vai entendendo que os personagens deslocados também podem fazer parte. A gente [na sociedade] cada vez mais está falando da diferença, e o filme reforça bastante isso”, diz a atriz.

Bullying: ou você sofreu ou conhece alguém que passou por isso

“Eu me identifico muito com o Barney nesse sentido, porque eu sempre fui muito tímida”, revela Sophia. “É até engraçado, pela profissão que a gente escolheu, se considerar tímida, mas eu sou, eu luto contra a minha timidez até hoje.”

“Aconteceu comigo, algumas vezes” assume Victor Sampaio, outro brasileiro que trabalhou nos storyboards da animação. “Eu era uma criança bem magrinha, sempre tem aquele cara grandão que dá uma zoadinha.”

“Mas eu sempre tive muita sorte de acabar encontrando amigos com que eu podia me conectar e formar um pequeno grupo, uma comunidade ali”, continua o artista. “Então acho importante a gente abordar esse tipo de coisa nos filmes, mas sempre mostrar o lado positivo, no fim das contas. A ideia é mostrar o Barney aprendendo a como passar por isso e ter as amizades que ele vai construir ao longo do filme, que vão ajudar ele a passar por toda essa situação.”

O brasileiro Victor Sampaio trabalhou na produção dos storyboards de ‘Ron Bugado’ (crédito: Filmelier)

“Mais do que o bullying, a gente vai falar [em ‘Ron Bugado’] do cyberbullying, que é um problema que os pais ainda não estão preparados para lidar”, revela Sérgio Malheiros, famoso por novelas como ‘Totalmente Demais’, da TV Globo, e que no longa dubla Mark Wydell, o idealista CEO da Bubble Inc. e criador do Ron.

O cyberbullying é, digamos assim, uma versão atualizada dos bullies (valentões) de antigamente: sai de cena o constrangimento presencial, entra a potencialização da vida virtual nas redes sociais. “É uma coisa muito distante de algumas gerações. Muitas vezes não só o cyberbullying do linchamento digital, mas de outras questões mais subjetivas, como o apagamento online, pessoas que não conseguem de alguma forma se sentirem relevantes”, continua o ator.

Vida 100% conectada

Para além do bullying, ‘Ron Bugado’ aborda a nossa dependência tecnológica – os B-bots são, na prática, uma metáfora para a nossa dependência das telas 100% conectadas, como celulares e tablets.

Savanah: a personagem ultraconectada de Ron Bugado (crédito: divulgação / 20th Century Studios)
Savanah é a personagem ultraconectada de ‘Ron Bugado’: ela vive em uma live (crédito: divulgação / 20th Century Studios)

“O filme bate em um dos principais dilemas do século XXI, que é essa relação social pautada pela tecnologia, e a pandemia deixou isso ainda mais claro. O filme vai refletir isso, sobre como a gente pode ter uma relação com a tecnologia de uma forma mais positiva, e como isso vai afetar as crianças e a interação social delas”, explica Sérgio Malheiros

“O filme traz isso bem claro à tona, e gente tem que tomar cuidado para não ficar refém da tecnologia, ela ser usada no bom sentido – principalmente com as crianças”, explica Marcelo Serrado, o inesquecível Edgar de ‘Anos Rebeldes’ e a voz nacional de Gerson Budobski, o pai de Barney. “Se todas as crianças têm um smartphone na escola e o seu filho não tem, cria-se uma coisa. Mas, por que tem que ter um smartphone? Cada um com o seu tempo. Não é melhor você dar outras coisas? Qual é a linha tênue? Você dar acolhimento, tentar outros tipos de jogos, ou então impor limites.”

O ator, que tem três filhos (uma adolescente e dois menores), continua: “É muito difícil educar uma criança hoje em dia, com a tecnologia é um desafio maior do que quando a gente não tinha tecnologia.”

“A gente pensa muito nisso, quando tivermos filhos”, compartilha Sophia, ao lado de Malheiros – os colegas de elenco são casados na vida real. “É complicado, não dá para simplesmente isolar a criança desse universo da tecnologia.”

Sophia Abrahão e Sérgio Malheiros: casal na vida real e juntos no elenco de ‘Ron Bugado’ (Crédito: Filmelier)

A relação exagerada com a tecnologia leva a outras questões que são abordadas no desenho animado e que impactam não só as crianças, mas também os adultos.

“Tem a ver com outra questão que está cada vez mais latente, principalmente com todos esses escândalos que tão rolando agora com Mark Zuckerberg, Facebook e tudo mais”, explica Malheiros. “O personagem principal ganha um robô que fica offline, inicialmente isso parece um defeito. Mas, de alguma forma, como isso ajuda no desenvolvimento daquela criança.” 

Amor cria pontes

Com tantos dilemas, uma das coisas mais bonitas de ‘Ron Bugado’ é a dedicação dos adultos para ajudar Barney. Se na vida real nem sempre as crianças recebem o apoio para enfrentar a situação, o longa-metragem traz duas situações distintas: a da professora, que exagera ao colaborar, e do pai amoroso, que tenta ajudar o filho com as ferramentas que tem em mãos.

Duas experiências que podem ajudar os adultos que se veem na mesma situação, percebendo como as suas ações impactam na vida das crianças.

“A minha personagem no filme, a senhorita Thomas, é a professora do Barney”, explica Sophia Abrahão. “E ela, de alguma forma, tenta ser essa pessoa que insere o Barney nas rodinhas sozinha, tenta ajudar o Barney a fazer amiguinhos na escola.”

“Minha mãe era a minha professora Thomas, que me ajudava com amiguinhos. Isso era muito ruim!”, relembra a atriz. “E o Barney sente esse desconforto também, com a senhorita Thomas tentando empurrar, tentando, de alguma forma, interagir com as crianças no colégio.”

Em Ron Bugado, Marcelo Serrado dubla o pai do protagonista (Crédito: Filmelier)
Em ‘Ron Bugado’ Marcelo Serrado dubla o pai do protagonista (Crédito: Filmelier)

“É muito bonita essa relação do pai com o filho”, compartilha Marcelo Serrado. “Ele quer agradar o filho, e os amigos todos tem uma coisa que o que o filho não tem. E o que ele dá para o filho é uma coisa que vem com defeito. Que, na verdade, não é um defeito, acaba sendo uma qualidade. É essa a dualidade no filme, que é bem interessante.”

Mais do que qualquer coisa, entre inúmeros dilemas da vida moderna – ou daqueles antigos que ganharam novas roupagens com a tecnologia -, ‘Ron Bugado’ é uma linda mensagem sobre amizade e aceitação de diferenças, revelando que, no fundo, todos nós temos as nossas particularidades, dúvidas e angustias. Um produto cultural que pode ajudar a formar gerações melhores do que aquelas que vieram anteriormente.

É como filosofa Carlos Lutterbach: “[No filme] Você vê que, quando você é criança ou adolescente, as pessoas acabam um pouco diferentes uma das outras, mas é preciso lembrar do que vocês têm em comum, que as coisas que te trazem juntos são mais fortes do que aquelas que te separam.”

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