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‘Rua Guaicurus’ mostra prostituição como ela é, sem filtros

Filme brasileiro mostra detalhes da rotina da rua Guaicurus, em Belo Horizonte, conhecido ponto de prostituição da capital mineira

Matheus Mans   |  
14 de julho de 2022 18:37
- Atualizado em 15 de julho de 2022 17:08

A rua Guaicurus é uma via em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, que tem uma particularidade: é conhecida pela prostituição. Afinal, é por lá que as trabalhadoras do sexo encontram clientes interessados em seus serviços, dispostos a pagar alguns reais em troca de prazer por um breve tempo. E é sobre esse espaço da capital mineira que se debruça o longa-metragem ‘Rua Guaicurus’, produção que chega nas salas dos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 14.

Dirigido por João Borges, estreante em longas, o filme possui uma narrativa que se mistura. Um enredo líquido. Afinal, de um lado, o cineasta e roteirista abraça o documental, trazendo detalhes da rotina dessas mulheres. Por outro, impossibilitado de retratar alguns detalhes desse cotidiano, Borges decide usar atores que interpretam sobretudo os clientes. Nessa mistura, não sabemos o que é realidade e o que é ficção. O que é mentira e o que é verdade.

Cena do filme Rua Guaicurus
Elizabeth é uma das personagens mais fortes de ‘Rua Guaicurus’ (Crédito: Divulgação/Embaúba)

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Essa ideia nasceu anos atrás, quando Borges foi convidado por um artista plástico mineiro a participar de uma intervenção artística na Guaicurus. A ideia era que artistas de toda a América Latina não só produzissem arte a partir de lá, mas que também vivenciassem a rua — morando nos hotéis, conhecendo as pessoas. João, por sua vez, ficou por lá e fez uma série de termografias que, ao contrário das fotos e a luz, se vale do calor da cena para produzir imagem.

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“Consegui fotografar as mulheres, as relações, sempre fazendo todas as imagens no escuro completo, conseguindo uma intimidade que, com luz, não seria possível”, contextualiza João, em entrevista ao Filmelier. “Isso foi a semente do filme. Afinal, na própria residência, escrevemos o roteiro do projeto e já saímos dessa nossa experiência com a ideia”.

‘Rua Guaicurus’, entre ficção e documentário

João Borges (Crédito: Divulgação/Embaúba)

Ainda que essa confusão entre real e ficção tenha algo de poesia, conversando com a própria realidade das garotas de programa que vivem nesse limiar entre a fantasia de nomes, idades e vidas falsas com a realidade dura das ruas, Borges conta que muito dessa ideia veio da dificuldade do dia a dia. “Tinha, logo de cara, uma restrição orçamentária. Ganhamos [um edital] de curta-metragem e, quando comecei a pesquisa, vi a riqueza disso e que, com muita estratégia e organização, poderia ter 12 dias de filmagem para fazer algo maior”, diz ele, sobre o filme de 75 minutos.

Além disso, antes da gravação do filme em si, João passou meses focado em algo específico: conquistar a confiança de prostitutas e clientes. “Foram meses falando com as trabalhadoras do sexo, com clientes, com donos de hotéis”, diz. “Mas muitos clientes não toparam aparecer. Vi que precisava de atores. Além disso, escutei muitas histórias que se iniciaram no trabalho, introduzindo também uma atriz para fazer esse trabalho de alguém entrando na Guaicurus”.

Enquanto isso, para conseguir espaço com as trabalhadoras do sexo, João precisou pagar pelos programas. Afinal, elas estavam em um ritmo de trabalho insano. Parar para falar com o cineasta significava perder dinheiro. “Pagava cerca de R$ 30 por 20 minutos. Entrava com um gravador, a gente ficava conversando”, conta. “Depois fui conquistando confiança, a gente saía pra tomar cerveja. Vinte minutos [de programa] virou uma hora. Se tornou uma outra coisa”.

Sem sexualização, sem julgamento

Outro ponto que desperta a atenção em ‘Rua Guaicurus’ é como ele segue no caminho contrário do que já foi feito nos cinemas sobre garotas de programa. Filmes como ‘Bruna Surfistinha’, ‘Jovem e Bela’ e até mesmo ‘Uma Linda Mulher’ ou romantizam ou sexualizam demais a personagem da garota de programa, sem nunca mostrar a verdade sem esses filtros. Tudo acaba soando artificial demais.

Já Borges, enquanto isso, foi por um caminho extremamente naturalista. Não à toa essa confusão entre ficção e documentário, ‘Rua Guaicurus’ mostra a vida como ela é. “Quando cheguei na Guaicurus, não era frequentador e cheguei ali com essa visão estereotipada”, conta o cineasta. “Mas fiquei ali observando os gestos, as conversas. E isso é o que me encanta mais. Todo mundo espera as relações prostitutivas, mas vi que poderia levar para a outra camada”.

João, assim, toma a decisão de não mostrar sexo explícito entre as trabalhadoras e os clientes. Ainda que haja uma ou outra cena de mais intimidade, tudo é gravado com respeito, quase pudor. Há apenas uma cena de sexo oral mostrada às claras, mas não dessas garotas retratadas, mas sim em um filme pornográfico passando na televisão. “A forma de filmar é documental, é afetiva”, diz. “Deixa a imagem do filme pornô para mostrar como ele destoa do meu filme”.

Em termos de informação, quase nada. “As informações estão no Google”, diz João. O resto de ‘Rua Guaicurus’ mostra o cotidiano ordinário, quase voyeurístico. E isso é o bastante para torná-lo um dos filmes mais interessantes do ano. “Ali é o retrato do cotidiano. Gosto de pensar que a maior parte da nossa vida acontece em um cotidiano ordinário. O fantástico é o cotidiano. É a relação que vivo todos os dias: o ordinário que se repete”, explica. “Poderia fazer cenas orgiásticas, mas levei para um outro lugar que se aproxima dos personagens. O sexo fica em um plano secundário”.

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