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‘The Dress’, curta na shortlist do Oscar 2022, universaliza o desejo de ser amado

Tadeusz Łysiak e Anna Dzieduszycka, em entrevista exclusiva ao Filmelier, comentam sobre a solidão humana e outros temas abordados no filme

26 de janeiro de 2022 16:49
- Atualizado em 27 de janeiro de 2022 10:49

Desejo. Solidão. Luxúria. Estes são os temas centrais das angústias de Julia (Anna Dzieduszycka), uma mulher com nanismo que trabalha como faxineira em um motel na região campestre da Polônia. Inserida em um mundo amargo, que repele e caçoa constantemente de sua aparência física, a protagonista de ‘The Dress’ (‘Sukienka’, no título original) apresenta sentimentos comuns a muitos de nós: inquietude, rejeição e não pertencimento.

Presente na shortlist do Oscar 2022, isto é, a peneira inicial dos títulos que disputarão as indicações oficiais da premiação, o curta-metragem do diretor polonês Tadeusz Łysiak chama atenção pela sinceridade amarga a respeito da sociedade contemporânea. Por tempo limitado, a produção pode ser assistida gratuitamente no YouTube.

“Nossa heroína é um canal de emoções universais. Qualquer um pode se identificar. Julia é fisicamente diferente do resto da sociedade, mas é guiada pelas mesmas necessidades e desejos que todos nós”, comentou Łysiak em entrevista exclusiva ao Filmelier. “O mundo está cheio de pessoas solitárias que foram condenadas a solidão, embora não as mereçam.”

‘The Dress’, indicado na shortlist do Oscar 2022, universaliza o desejo de ser amado
Renata (Dorota Pomykała) é uma das confidentes da protagonista de ‘The Dress’ (Crédito: Divulgação/Warsaw Film School)

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As coisas, inicialmente monótonas e cotidianas, começam a mudar quando Julia conhece Bogdan (Szymon Piotr Warszawsk), um caminhoneiro atraente que chama sua atenção. E a partir daí o roteiro nos apresenta uma série de traumas e ansiedades que a protagonista enfrenta: especialmente quando ela confessa para sua amiga Renata (Dorota Pomykała) que ainda é virgem.

Através de movimentos de câmera sutis e sempre bastante sensíveis à baixa estatura da personagem principal, somos afogados por um mar de sensações. Ao mesmo tempo que nos arrebatamos pela honestidade crua dos close-ups dos enquadramentos, também sentimos empatia pela força de Julia que, na maioria das vezes, é poderosamente silenciosa. 

“Assim que Tadeusz me mostrou o roteiro de ‘The Dress’, a história realmente começou.”, contou Anna Dzieduszycka. “Ler o texto foi uma experiência muito especial para mim, porque não vemos no cinema pessoas de baixa estatura como as personagens principais.”

A atriz, na verdade, foi uma das inspirações para o diretor falar sobre o tema. “Conheci Anna no início dos meus estudos [na Escola de Cinema de Varsóvia], então já sabia que ela era uma pessoa incrível e poderosa. Mas eu não tinha certeza se ela gostaria do roteiro e iria querer atuar no filme”, relembrou Łysiak. 

‘The Dress’, indicado na shortlist do Oscar 2022, universaliza o desejo de ser amado
‘The Dress’ é um dos primeiros grandes trabalhos da atriz Anna Dzieduszycka (Crédito: Divulgação/Warsaw Film School)

Com uma performance robusta e minuciosa, Dzieduszycka impressionou o jovem cineasta – que considera a participação dela um dos maiores sucessos do curta. “

Eu imediatamente soube que precisava transferir o máximo de sua personalidade para dentro de ‘The Dress’. Eu queria contar uma história sobre uma mulher muito forte, que luta para encontrar paz e amor em tempos sombrios e brutais. Acho que este assunto é particularmente importante na Polônia, onde as pessoas muitas vezes têm medo da diferença.”

A condição feminina dentro de ‘The Dress’

Embora os temas centrais de ‘The Dress’ sejam intrinsecamente universais, a experiência e, principalmente, a objetificação e sexualização das mulheres, certamente são mais sensíveis a uma parcela social específica. 

“Eu sabia que queria fazer um filme sobre solidão e sobre o fato de que muitos rejeitam outros pelos mais diversos motivos como aparência, etnia, nacionalidade e sexualidade. Mas eu sabia, desde o início, que eu teria que – primeiro de tudo, conversar muito com a Anna – mas também encontrar uma feminilidade em mim mesmo e ser sensível”, apontou Łysiak sobre a imprescindibilidade dessas trocas com a atriz.

Nos 30 minutos de duração, sentimos, juntos dos visuais, das cores do motel e na cinematografia, a complexidade dos sentimentos de Julia, fazendo com que a experiência seja catapultada ainda mais pela presença – física, mas também de certa forma onisciente e subjetiva – do objeto de sua paixão, Bogdan. 

“Foi muito difícil construir a Julia. Eu estava bastante ansiosa porque queria que ficasse o mais natural possível”, contou a atriz. Com temas importantes e delicados, o filme é íntimo e responsável no que diz respeito ao notável cuidado com o lugar de fala.  

O diretor também pretendia que a produção instigasse um debate. “Eu gosto que meus curtas sejam vistos como um tipo de provocação. Perguntas sobre a sociedade e, no caso de ‘The Dress’, sobre padrões de beleza e por qual motivo perseguimos uma estética específica. Eu odeio o fato de termos que confrontar o tempo todo com o padrão dos modelos ideais que encontramos nas redes sociais, por exemplo.”

Coerente com o tom narrativo, o cineasta abre mão dos finais felizes e, enquanto os créditos rolam, ‘The Dress’ deixa um vazio abismal na boca do estômago. Isso porque, independentemente das coisas que aconteceram com a protagonista, vemos o que Julia consegue apreender das situações obscuras que viveu: ela se encontra ainda mais solitária que no início.  

“Este era para ser um filme que deixa você com mais questionamentos sobre a vida e sobre o ser humano. Como podemos nos encontrar neste mundo que menospreza toda e qualquer imperfeição nossa? Nós esquecemos o mais importante: nossos corações. Nós esquecemos que todos nós somos produtos da mesma argila e que todos precisamos de amor. A solidão é a maior doença do século XXI. Milhares de corações são assassinados todos os dias. E as pessoas continuam vivendo como se não fosse nada.”, finaliza Łysiak.

Por tempo limitado, ‘The Dress’ está disponível na íntegra – e de graça – no YouTube. Clique aqui para assistir.

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