top-gun-2

‘Top Gun: Maverick’ e a Síndrome de Peter Pan

Continuação do mítico clássico dos anos 1980 revela um pouco sobre os EUA, Hollywood e até sobre os seus fãs

25 de maio de 2022 18:03
- Atualizado em 26 de maio de 2022 21:51

Poucos filmes representam tanto uma era de Hollywood como ‘Top Gun: Ases Indomáveis‘. Lançado em 1986, o longa-metragem incorporou a extravagância dos anos 1980, a ascensão de um astro (Tom Cruise), uma era de pujança dos blockbusters e o sentimento de vitória americano no finzinho da Guerra Fria. Sucesso instantâneo, que se perpetuou com inúmeras reprises na TV durante a década seguinte e marcou mais de uma geração.

Passados 36 anos (e alguns adiamentos por causa da pandemia de covid-19), chega oficialmente aos cinemas nesta quinta, 26, a sequência dessa história – ainda que já estejam acontecendo sessões de pré-estreia desde o último sábado, 21.

E o que dizer de ‘Top Gun: Maverick‘? Em poucas palavras, o longa-metragem é a catarse de quem viveu o cinema dos anos 1980 e 1990. Uma relíquia da Guerra Fria que é resgatada, relapidada e adaptada não só para os agora tiozões que vibraram com Tom Cruise e se recusam a crescer, mas para as gerações seguintes que procuram por uma nova fórmula entre as grandes franquias.

Publicidade

Não é só isso: o filme também marca o quanto essa indústria mudou nessas quase quatro décadas.

Tom Cuise volta às altura com 'Top Gun: Maverick' (crédito: divulgação / Paramount Pictures)
Tom Cuise volta às altura com ‘Top Gun: Maverick’ (crédito: divulgação / Paramount Pictures)

🎞  Quer saber as estreias do streaming e dos cinemas? Clique aqui e confira os novos filmes para assistir!

O começo de ‘Top Gun’

É quase impossível analisar ‘Top Gun: Maverick’ sem minimamente olhar para a produção original. Lançada em 1986, ‘Top Gun: Ases Indomáveis’ foi uma produção da dupla Don Simpson e Jerry Bruckheimer. Ambos advindos do mercado publicitário, eles foram os responsáveis por elevar a quase perfeição a fórmula dos filmes arrasa-quarteirão, iniciada na década anterior por Steven Spielberg em ‘Tubarão‘.

Seus nomes se tornaram quase que míticos em Hollywood – não só por produções como ‘Flashdance‘ e ‘Um Tira da Pesada‘, mas também por viverem todos os clichês possíveis das celebridades dessa indústria. Simpson, particularmente, era o mais polêmico: além de ter sérios problemas com drogas e com exageros relacionados a mulheres, festas e muito mais. O produtor morreu em 1996, vítima de uma insuficiência cardíaca provocada pelo uso indiscriminado de drogas.

O ‘Top Gun’ original nasceu desse berço, mais mercadológico e de exageros, sem necessariamente qualquer pretensão artística. A escolha do diretor foi, inclusive, sintomática para isso: Tony Scott (irmão de Ridley Scott, de ‘Alien: O 8º Passageiro‘) começou justamente fazendo comerciais de TV.

O filme funciona exatamente por isso: entrega uma história de superação maniqueísta, com algum drama e boas cenas de ação, tudo isso envelopado em uma estética chiclete que só a publicidade dos anos 1980 poderia produzir. O enredo é uma grande metáfora sobre deixar o passado e seguir em frente, o que cria uma fácil identificação com o público – afinal todo mundo tem alguma âncora no que já viveu.

Há, ainda, o tão falado “bromance” (romance entre amigos, em tradução livre), que não é necessariamente sexual, mas sim um monumento à amizade padrão heterossexual masculina. Mais identificação com o público-alvo.

Top Gun: Ases Indomáveis é o puro suco do cinema dos anos 1980 (crédito: divulgação / Paramount Pictures)
‘Top Gun: Ases Indomáveis’ é o puro suco do cinema dos anos 1980 (crédito: divulgação / Paramount Pictures)

Como laço vermelho, ‘Top Gun’ surfa na Era de Ouro da indústria musical, entregando uma trilha sonora que se tornou icônica – canções como ‘Danger Zone’ (de Kenny Loggins), ‘Mighty Wings’ (Cheap Trick) e, claro, ‘Top Gun Anthem’ (de Harold Faltermeyer e Steve Stevens) e a inesquecível ‘Take My Breath Away’ (Berlin) marcaram para sempre essa convergência entre cinema e música.

O resultado? Um clássico instantâneo, que custou US$ 15 milhões (US$ 39,57 milhões, com a inflação) e rendeu US$ 357,1 milhões (US$ 942 milhões, em valores atuais) de bilheteria para a Don Simpson/Jerry Bruckheimer Films e para a Paramount – fora todo o dinheiro arrecadado com o boom do mercado de home video, TV paga, aberta e, nos últimos anos, com o streaming.

O retorno de Maverick

Voltar à San Diego, onde fica a Base Naval de Miramar, era uma questão de tempo. Não necessariamente porque a história do (ainda) capitão Pete “Maverick” Mitchell dava brechas para uma continuação, mas muito pelo atual momento de Hollywood – onde a nostalgia tem um efeito relevante na arrecadação de grandes bilheterias, em um negócio chamado cinema que se tornou arriscado demais para os indomáveis com ideias 100% originais (como foram os próprios Simpson e Bruckheimer no passado).

Nessa nova história, descobrimos que Maverick (Tom Cruise) continua na Marinha, agora como piloto de testes – muito graças à ajuda do ex-adversário, e agora amigo, Iceman (Val Kilmer). Ele, no entanto, é chamado novamente para a Escola de Armas de Caças da Marinha, mais conhecida como TOPGUN, para treinar uma nova geração de grandes pilotos de caça para enfrentarem uma missão extremamente arriscada.

De volta à escola: Maverick retorna à Miramar como instrutor (crédito: divulgação / Paramount Pictures)

Em San Diego, Maverick precisa lidar com os fantasmas do passado na forma do tenente Bradley “Rooster” Bradshaw (Miles Teller), filho de Goose – parceiro e grande amigo do personagem de Cruise, morto durante os eventos do primeiro ‘Top Gun’.

A missão de transformar esse enredo em um filme coube a Joseph Kosinski (de ‘Tron: O Legado‘), que gasta os primeiros minutos do longa com uma verdadeira bomba de nostalgia: a tela é inundada por cenas de caças em um porta-aviões, embalados por um pot-pourri das músicas que fizeram o primeiro ‘Top Gun’ icônico.

Há dois motivos para isso: o primeiro é transportar o espectador rapidamente para o clima do filme original; e também já ticar logo de cara o máximo possível de referências, libertando a continuação de uma necessidade exagerada de colocá-las no decorrer da história.

Dá certo. Sim, há a recriação de momentos icônicos de ‘Top Gun’ nessa continuação, mas (quase) todos servindo à história que é contada. História essa que é sobre os perigos em não se querer crescer.

Porque sim, Maverick (o personagem) traz em si uma espécie de “síndrome de Peter Pan”: recusou-se a evoluir, entendendo que a trajetória como piloto de jatos é finita, e que uma hora precisaria buscar outras ambições na vida. A tarefa de treinar uma nova geração de top guns se complementa a isso: é necessário passar a tocha, a missão, para os mais jovens.

A relação de Maverick com Rooster, filho de Goose, é um dos grandes fios condutores do filme (crédito: divulgação / Paramount Pictures)

É um toque belo, interessante, que dialoga com os temas do primeiro filme – e, provavelmente, com grande parte dos fãs do original que ainda se vêm com a mesma idade que tinha quando assistiram ao Tom Cruise pilotando um F-14 pela primeira vez.

Dessa forma, Kosinski, Bruckheimer e os roteiristas Peter Craig, Justin Marks, Ehren Kruger, Eric Warren Singer e Christopher McQuarrie têm o mérito de capturar a essência do original ao mesmo tempo em que evoluem e ampliam a trajetória daqueles personagens, construindo uma produção que consegue ficar de pé mesmo para quem não gostou (ou nunca viu) o primeiro ‘Top Gun’.

Claro que isso ocorre após uma minuciosa leitura de como encaixar em ‘Top Gun: Maverick’ tudo aquilo presente nos blockbusters modernos. Além da nostalgia, o longa vai em fontes como as franquias ‘Velozes & Furiosos’ e ‘Missão: Impossível’, também agregando interessantes elementos do primeiro ‘Star Wars’. Sem falar na criação daqueles micromomentos que possuem potencial para serem “memetizados” na internet de hoje.

Surpreendentemente, essa mistura funciona.

Para não dizer que ‘Top: Gun Maverick’ não inova, a cereja do bolo é quando os aviões decolam. Após meses de treinamento, os próprios atores embarcaram em caças de verdade para gravarem suas cenas – trazendo uma camada de realismo inédita. Afinal, como o próprio Cruise disse em certo momento, é impossível atuar a distorção no rosto e na voz provocados por uma viagem hipersônica.

Houve um investimento pesado para que as cenas de ação do filme fossem extremamente realistas (crédito: divulgação / Paramount Pictures)

No registro dessas cenas estão nada menos que cinco câmeras 6K instaladas nos jatos, em uma conquista tecnológica digna de nota. O resultado? Cenas de ação que já entraram para a história do cinema comercial.

Já não está na hora de crescer?

A (agora) franquia ‘Top Gun’ é maniqueísta por natureza. Afinal, a única forma de torcer por esses pilotos de jato na tentativa de superar o impossível é comprando que eles são os heróis – e que os adversários são os vilões.

Em 1986 era mais fácil vender a ideia de que os Estados Unidos eram os grandes protetores do “mundo livre”, em uma luta contra a União Soviética e outras forças “malignas”. A missão final não tem muitos detalhes, mas claramente os adversários são os soviéticos e seus caças MIG – com os pilotos retratados quase como os Stormtroopers de ‘Star Wars’: soldados sem vontade própria, sem nome, sem rosto.

‘Top Gun: Maverick’ traz de volta essa sensação de “polícia do mundo” para os americanos, algo quase inocente, para não dizer infantil. O twist aqui é que os adversário da missão final são ainda mais genéricos. É retirada qualquer coisa que poderia identificar os inimigos como de algum país, seja China, Rússia ou Coreia do Norte.

Será que não está na hora de Maverick, a indústria e de nós mesmos não deixamos o passado no passado? (crédito: divulgação / Paramount Pictures)
Será que não está na hora de Maverick, a indústria e de nós mesmos não deixamos o passado no passado? (crédito: divulgação / Paramount Pictures)

Não se engane: não é para evitar um incidente internacional, mas sim para que o longa possa funcionar em qualquer país do mundo, sem causar rejeição, além de ampliar o chamado soft power – quando se usa a cultura como instrumento de relações públicas para influenciar o comportamento e interesses políticos pelo planeta.

Por isso, assista a filmes assim sempre com o olhar crítico ligado em relação à política.

Curiosamente, a própria temática de ‘Top Gun’ funciona como uma metáfora – seja para esse esforço militar americano, para essa necessidade de Hollywood revisitar o que deu certo no passado ou para os tiozões que se recusam a crescer. Para os três casos, os anos 1980 e 1990 – seja para o bem ou para o mal – acabaram.

Talvez já tenha passado da hora de seguir em frente.

Quer saber mais sobre ‘Top Gun: Maverick’, além de assistir ao trailer e encontrar o link para a compra de ingressos? Clique aqui!

Siga o Filmelier no FacebookTwitterInstagram e TikTok.