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‘Tico e Teco: Defensores da Lei’ e a tragédia do “Sonic Feio”

A participação do “Sonic Feio” em ‘Tico e Teco: Defensores da Lei’ reforça a tendência de Hollywood de fazer “filmes de algoritmo” descartáveis

Lalo Ortega   |  
24 de maio de 2022 16:18
- Atualizado em 25 de maio de 2022 18:06

Em 20 de maio, ‘Tico e Teco: Defensores da Lei’, uma comédia metaficcional de ação e mistério que mistura animação e imagem real, chegou ao Disney+. Mas se você estava no Twitter naquele dia, provavelmente ouviu a notícia por meio de uma hashtag e memes que pouco tinham a ver com a dupla de roedores.

Nessa mesma sexta-feira, #UglySonic (#SonicFeio, em tradução literal) virou tendência na rede social, inundando-a de imagens e comentários sobre a aparição do questionável ouriço azul em um filme da Disney.

Na trama, os esquilos Tico e Teco chegam a Hollywood com o sonho de fazer sucesso e conseguem, com sua bem sucedida série de aventuras homônima (com a qual muitos de nós crescemos nos anos 1990). No entanto, após a separação de Tico e Teco e o cancelamento do programa, eles seguem caminhos separados: Tico se torna um corretor de seguros e Teco faz uma “cirurgia CGI” na tentativa de ficar dentro dos padrões e manter as velhas glórias.

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Além do milagre jurídico representado pela inclusão do Sonic Feio (como é chamado aqui no Brasil), a piada é uma das muitas de um filme que pretende tirar sarro de sua própria indústria, uma montanha-russa em que você está no pico por um minuto, antes de cair mais baixo no próximo, agarrando-se à nostalgia do público.

Por seu enredo, estilo visual e número de personagens convidados, ‘Tico e Teco: Defensores da Lei’ foi comparado favoravelmente a ‘Uma Cilada Para Roger Rabbit’. Também foi aplaudido pela ingenuidade autorreferencial de seu roteiro, que zomba tanto da própria Disney quanto dos vícios de Hollywood como indústria.

'Tico e Teco: Defensores da Lei' e a tragédia do "Sonic Feio"
Semelhante a ‘Uma Cilada Para Roger Rabbit’, ‘Tico e Teco: Defensores da Lei’ se desenrola como filme de mistério criminal (Crédito: Divulgação/Disney)

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No entanto, embora seja inegavelmente engraçado, a participação do Sonic Feio – e a forma como impactou as redes sociais – é apenas um exemplo sintomático do que as produções de estúdio agora pretendem ser: coleções de momentos que aludem à cultura da internet, facilmente replicáveis ​​dentro de si mesma (geralmente na forma de memes inacabáveis), antes de ser descartado para o lançamento da semana seguinte.

Mas primeiro, um pouco de contexto.

Quem é “Sonic Feio” em ‘Tico e Teco: Defensores da Lei’?

A piada de Ugly Sonic ou Sonic Feio pode não ter sido muito engraçada entre os usuários menos frequentes da Internet. Mas os internautas, cinéfilos e até os gamers mais assíduos certamente conhecem a história.

Há alguns anos, muito antes de transformá-lo em uma franquia de filmes de sucesso, a Paramount Pictures preparava a estreia de ‘Sonic: O Filme’, uma adaptação cinematográfica de um dos personagens de videogame mais famosos da história: ‘Sonic, o Ouriço’ (‘Sonic the Hedgehog’, no original). Só que o primeiro trailer lançado pelo estúdio parecia bem diferente da versão final apresentada ao público.

Veja bem, Sonic é um ouriço azul extremamente caricatural, então para a adaptação a Paramount optou por um design um pouco mais realista, com membros menos exagerados. O resultado foi algo unanimemente considerado tão terrível pelo público das redes sociais, que o estúdio tentou (sem sucesso) apagá-lo da existência desde então. O trailer original não está mais em seus canais oficiais, mas cá entre nós, nada realmente desaparece da internet:

Em poucos dias, o diretor do filme anunciou que, em resposta às críticas dos fãs, o estúdio redesenharia completamente a versão cinematográfica do personagem. Isso, segundo os relatórios mais conservadores, custou à produção mais cinco milhões de dólares, além de outros cinco meses de trabalho.

Mesmo que o design original fosse objetivamente horrendo (caramba, aqueles dentes…), ‘Sonic: O Filme’ marca uma daquelas raras – embora cada vez mais comuns – instâncias de um estúdio tentando corrigir as falhas e fazer algo mais próximo do que o fãs querem.

Foi assim que Sonic Feio foi condenado a viver o resto de seus dias na infâmia, dando autógrafos em conferências de quadrinhos e sendo ridicularizado por um filme da Disney.

‘Tico e Teco: Defensores da Lei’ é apenas mais um “filme de algoritmo”

De certa forma, o novo filme dos esquilos da Disney é uma paródia de quão selvagem e ingrata a indústria do entretenimento pode ser.

No entanto, também visa ironizar como Hollywood procura espremer até o último dólar da nostalgia do público por seus filmes e séries favoritos do passado. Personagens como Sonic Feio ou o próprio Tico e Teco, em especial o último, que sobrevive porque há pessoas dispostas a pagar por mercadorias autografadas de estrelas em declínio.

Isso, e que também há pessoas dispostas a pagar uma assinatura Disney+ para ver Tico e Teco e muitas outras participações especiais das séries e filmes com os quais cresceram ou, na falta disso, o enésimo remake ou reboot deles. “Não é um reboot, é um retorno”, ironicamente dizem os materiais promocionais do filme, até fazendo uma piada às suas próprias custas: “ninguém gosta de reboots”.

Porque não se trata mais de contar uma boa história: trata-se de contar quantos personagens reconhecemos nela. É a mesma cultura que faz um filme bem-sucedido se tiver bastante Homem-Aranha nele, ou causa reclamações se não tiver todas as aparições esperadas pelo público: a norma não é surpreender o fã com algo inovador, mas agradá-lo com algo que ele já conhece (mesma razão pela qual eu afirmo que ‘Matrix Resurrections’ é uma das poucas sequências que valem a pena).

'Tico e Teco: Defensores da Lei' e a tragédia do "Sonic Feio"
“Ei, você se lembra daquele personagem daquele filme que você gostou há 20 anos? Bem, ele está de volta!” (Crédito: Divulgação/Disney)

Curiosamente, ‘Tico e Teco: Defensores da Lei’ também foi comparado à sequência de Space Jam. Alguns chegaram a dizer que é tudo o que ‘Space Jam: Um Novo Legado’ gostaria de ser.

Mas realmente não é. Embora o ‘Space Jam’ tenha criticado abertamente “filmes de algoritmo” (apesar de ser um), é fundamentalmente o mesmo que o filme da Disney, pois ambos zombam da crise de criatividade de sua indústria. Aqui a exploração das mesmas franquias e histórias continua, de todas as formas possíveis, apenas disfarçadas de ironia e paródia.

E é aí que as comparações com Roger Rabbit são mais infelizes. Além do fato de que este último foi um divisor de águas da animação (que Tico e Teco apenas imitam), há algo a ser dito sobre as motivações de seus respectivos vilões.

No clássico de Robert Zemeckis, Judge Doom (Christopher Lloyd) acaba sendo um desenho animado posando como humano. Seus planos são macabros: livrar-se de Toontown e todos os seus habitantes animados por um produto químico letal, para construir uma mega-estrada lucrativa. Livrar-se da arte por dinheiro, basicamente.

No filme da Disney, Tico e Teco descobrem uma trama semelhante. Alguém está sequestrando desenhos animados de Hollywood, mas para explorá-los de outra maneira: pirateando-os para estrelar versões baratas (insinuadas de que são chinesas) de seus próprios filmes. O inimigo, em outras palavras, não ataca a criatividade, mas a propriedade intelectual.

O que diz muito sobre o amálgama homogêneo de propriedades intelectuais que a Disney se tornou, um depósito infinito de personagens a serem jogados indiscriminadamente na produção da vez. Eles não vão transformá-los em personagens piratas, mas vão transformá-los em inúmeros memes da internet.

Pobre Sonic Feio. Já teremos esquecido dele na próxima semana.

‘Tico e Teco: Defensores da Lei’ está disponível no Disney+. Para saber mais sobre o filme, ver o trailer e encontrar o link para assistir online, clique aqui!

Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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