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‘A Lenda do Cavaleiro Verde’ e a luta contra a passagem do tempo

Dirigido por David Lowery, ‘A Lenda do Cavaleiro Verde’ complementa os temas apresentados em ‘Sombras da Vida’, um de seus filmes anteriores

Lalo Ortega   |  
12 de janeiro de 2022 16:53
- Atualizado em 13 de janeiro de 2022 18:31

“Vermelho é a cor da luxúria, mas verde é o que resta da luxúria, no coração, na barriga”, diz uma nobre donzela (Alicia Vikander) ao jovem cavaleiro Gawain (Dev Patel, de ‘Quem Quer Ser um Milionário?’) em ‘A Lenda do Cavaleiro Verde’ (‘The Green Knight’, no original), filme lançado nas plataformas de streaming de compra e aluguel na última semana e que chega ao Amazon Prime Video em 21 de janeiro. “Verde é o que resta quando a veemência se desvanece, quando a paixão morre, quando nós também morremos.”

Dado o título, a cor verde e os significados da vida e da morte por ela evocados são um dos principais temas desta fantasia épica medieval, dirigida por David Lowery, adaptação do romance arturiano do século XIV ‘Sir Gawain e o Cavaleiro Verde’, de autoria desconhecida.

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A vida e a morte, de fato, estão entrelaçadas no cerne do conflito para o protagonista. A história começa com o jovem Gawain, que é convidado para a Távola Redonda por seu tio, o Rei Arthur (Sean Harris), para compartilhar um banquete com os cavaleiros no Natal (‘A Lenda do Cavaleiro Verde’ conta como um filme de Natal fora do convencional? Possivelmente).

No entanto, o encontro é interrompido por um ser misterioso, um homem de pele verde, como uma árvore ambulante vestindo uma armadura e um machado. O Cavaleiro Verde (Ralph Ineson, de ‘A Bruxa’) apresenta um desafio aos presentes: o guerreiro que conseguir atacá-lo poderá ficar com seu machado, mas em troca terá que viajar até a Capela Verde para receber um ataque de igual magnitude para o próximo ano.

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Gawain, ansioso para provar seu valor, aceita o desafio e brande Excalibur, a espada de seu tio. Quando o Cavaleiro Verde se rende no duelo, o jovem guerreiro corta sua cabeça – a lógica diria que se seu oponente estivesse morto, ele não teria mais que cumprir sua promessa. No entanto, para surpresa de todos, ele se levanta e levanta a cabeça decepada do chão. Antes de desaparecer, ele lembra a Gawain que eles têm um encontro em um ano.

Assim, a história avança para o ano seguinte, quando Gawain está vivendo de excessos. Arthur o lembra que ele precisa partir para enfrentar sua grande prova como cavaleiro: empreender sua perigosa jornada para literalmente encontrar a morte.

O “anti-cavaleiro” e o medo natural da morte

A imagem de cavaleiros estabelecida pela cultura popular é de galanteria inflexível, vista em filmes como ‘A Bela Adormecida’, da Disney, ou ‘A Princesa Prometida’, para citar dois exemplos famosos. São homens infalivelmente corajosos que, de espada e escudo na mão, enfrentam desafios inimagináveis ​​e saem por cima.

‘A Lenda do Cavaleiro Verde’ é, se alguma coisa, o tipo de filme que desmistifica esses personagens e, sem realmente privá-los de superstição ou magia – será necessário dizer que existem alguns elementos fantásticos aqui – os coloca na humanidade mundana. É uma dicotomia que o roteiro, também escrito por Lowery, enfatiza cuidadosamente.

Nas cenas iniciais, Patel dá a Gawain uma admiração adolescente enquanto ele se senta ao lado do Rei Arthur e dos cavaleiros da Távola Redonda. Questionado pela rainha Guinevere (Kate Dickie) sobre o que vê ao seu redor, Gawain responde que “lendas”. Obviamente, a aspiração de ser um cavalheiro digno de histórias e canções, de um legado de glória, está em sua mente.

Entretanto, um ano após a decapitação do Cavaleiro Verde, Gawain é apenas o tema de um show de marionetes, que zomba dele e de sua condenação. Até então, ele vive seus dias entre o álcool e as prostitutas, fugindo de seu destino inevitável até que Arthur lembre o jovem de seu dever.

Além disso, ao longo de ‘A Lenda do Cavaleiro Verde’, o protagonista nunca é retratado como um guerreiro formidável, muito menos corajoso. Em vez de ideais de coragem e temperança, as constantes no rosto de Patel são a dúvida e o medo quando ele enfrenta ladrões, fantasmas, gigantes e o próprio clima a caminho da Capela Verde.

Afinal, Gawain é apenas um homem. Um homem frágil, consciente de sua mortalidade e aterrorizado por ela, agarrando-se desesperadamente à vida a cada passo em direção à morte, movido por uma honra que é mais um dever do que um ideal.

'A Lenda do Cavaleiro Verde' e a luta contra a passagem do tempo
Outro cavalheiro lutando contra o inevitável (Crédito: Divulgação/SF Studios)

Longe de ser um típico cavaleiro galante da fantasia, o protagonista de ‘A Lenda do Cavaleiro Verde’ nos lembra mais Antonius Block (Max von Sydow), personagem central do clássico de Ingmar Bergman, ‘O Sétimo Selo’. Ele decide lutar por sua vida em uma aposta desesperada e absurda: um jogo de xadrez contra a personificação da morte.

‘A Lenda do Cavaleiro Verde’: o tempo é implacável e inevitável

Na medida em que se assemelham o clássico filme de Bergman e ‘A Lenda do Cavaleiro Verde’, dizer que o antagonista deste último é apenas mais uma personificação da morte seria um pouco limitado. No entanto, é uma presença na história igualmente implacável, embora isso não signifique que os humanos deixem de lutar contra sua inevitabilidade.

Antes de partir em sua jornada, Gawain recebe de sua mãe bruxa (Sarita Choudhury), uma faixa com um amuleto que, segundo ela, o protegerá do mal enquanto ele o carregar consigo. A proteção contra a morte não é mais deixada ao acaso da habilidade e das armas, mas é legada pela superstição ao poder absoluto do sobrenatural.

E ainda vemos o protagonista morrer em mais de uma ocasião durante ‘A Lenda do Cavaleiro Verde’. A primeira e mais simbólica delas é quando, após ser assaltado por um trio de ladrões que roubam seu machado e cavalo, ele é amordaçado e abandonado à própria sorte no meio da floresta.

Na cena, vemos Gawain no chão, lutando para se libertar. A câmera sai, gira para a direita até completar um giro de 360 ​​graus. Quando reencontramos o jovem guerreiro, ele não passa de uma pilha de ossos: não conseguiu se libertar e morreu de fome.

A câmera olha para o herói sem sepultura, morto sem decoro, antes de se afastar novamente e fazer uma panorâmica para o outro lado, traçando outra curva completa. De volta ao ponto de partida, encontramos Gawain vivo novamente. É o movimento da câmera como manifestação da passagem do tempo.

O cavalheiro novato percebe uma coisa: se não fizer algo, vai morrer ali mesmo. Assim, ele rasteja até a espada que os ladrões abandonaram e consegue se libertar. Nós o vimos morrer em um futuro possível, mas não na Capela Verde nas mãos de seu temido adversário.

'A Lenda do Cavaleiro Verde' e a luta contra a passagem do tempo
‘A Lenda do Cavaleiro Verde’ mostra os diversos futuros para seu protagonista (Crédito: Divulgação/A24)

Esta é a primeira vez que o filme planta em nossas mentes a ideia de que, mesmo que o Cavaleiro Verde não corte sua cabeça, Gawain inevitavelmente morrerá. Talvez ele não morra no Natal, ou no ano seguinte, ou nos 20 seguintes. Mas vai morrer.

‘A Lenda do Cavaleiro Verde’ retoma a ideia várias vezes: primeiro, quando conhece o fantasma de Winifreda (Erin Kellyman), decapitado como está destinado a ser; segundo, quando Gawain fica com a sedutora donzela interpretada por Alicia Vikander, na última parada antes de concluir sua jornada.

A terceira vez é no final da história, quando o protagonista finalmente chega ao compromisso para cumprir sua promessa. Quando o Cavaleiro Verde está prestes a revidar, Gawain recua, mas depois de experimentar uma visão de seu futuro se ele fugir, ele decide jogar fora o amuleto de sua mãe, ajoelhar-se e enfrentar sua morte com coragem. No entanto, seu destino permanece ambíguo, pois o filme termina aí.

‘A Lenda do Cavaleiro Verde’ é uma história que nos confronta com a ideia de nossa inevitável mortalidade e insignificância no grande esquema das coisas, mas não é a primeira vez que David Lowery nos apresenta tais temas em seus filmes. Curiosamente, embora esta seja uma fantasia épica medieval, é uma ótima sequência de seu drama sobrenatural contemporâneo de 2017, o excelente ‘Sombras da Vida’.

Nele, para resumir a história, um homem morre prematuramente e é condenado a testemunhar, como um fantasma, a passagem da vida sem ele. Literalmente um banshee, o fantasma permanece ligado à casa onde morou com sua parceira, mesmo décadas depois que ela se foi. Através dos séculos, passado e presente, observa o ciclo interminável de vida e morte.

E assim como a sequência em que Gawain é amarrado e abandonado em ‘A Lenda do Cavaleiro Verde’, ‘Sombras da Vida’ tem sua própria cena (estranhamente, também no meio do longa-metragem, mais ou menos) que condensa essas ideias. Este é um dos poucos momentos de diálogo do filme em que, durante uma festa, um dos convidados fala sobre como os humanos se agarram à vida construindo nossos legados. Fazemos isso, diz ele, mesmo sabendo que tudo será irremediavelmente destruído, mesmo sabendo que a morte inevitavelmente chegará a todos nós, até mesmo à Terra e ao próprio universo.

E por causa disso, é de se esperar que esses filmes sejam desconfortáveis. No final das contas, somos como Gawain: ninguém quer parar e pensar muito sobre sua própria mortalidade, muito menos caminhar voluntariamente para a morte. Mas David Lowery nos convida não apenas a pensar sobre a mortalidade, mas a abraçá-la completamente.

“Eu queria escrever um final em que a cabeça [de Gawain] fosse cortada, e isso é uma coisa positiva”, disse Lowery à Variety. “Esse é um final feliz. Ele enfrenta seu destino com coragem, e há honra e integridade nisso. Mas isso não significa que ele está morto. Recebeu o golpe que prometeu, e tudo volta ao seu equilíbrio no universo do filme”.

Talvez por isso, o antagonista se apresente como uma espécie de árvore ambulante blindada: é a natureza, e é inútil impedi-la de seguir seu curso. Se algo ficou nítido após a estranheza de ‘A Lenda do Cavaleiro Verde’ e ‘Sombras da Vida’, é que há apenas uma coisa a fazer: cumprir a jornada com coragem, pois o destino final é o mesmo para todos nós.

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Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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