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‘A Pior Pessoa do Mundo’ e a fome pela vida

Dirigido por Joachim Trier, ‘A Pior Pessoa do Mundo’ recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes

Lalo Ortega   |  
31 de março de 2022 10:58
- Atualizado em 1 de abril de 2022 15:59

Conforme assistia ao filme ‘A Pior Pessoa do Mundo’ – que chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira, 24 de março – senti uma profunda identificação com sua protagonista, Julie (a cativante Renate Reinsve). Ao mesmo tempo, e com o privilégio da perspectiva que o tempo proporciona, lembrei-me dos conselhos de meu pai.

Para encurtar a história: como recém-formado, por volta dos 23 anos, declarei minhas ambições de viajar pelo mundo, estudar no exterior por um ano, escrever um livro, morar com amigos em um apartamento na capital e aliar minha profissão como publicitário com crítica de cinema, tudo antes de completar 30 anos. Com um salário chinfrim, eu era alarmantemente ingênuo à realidade das minhas possibilidades. Mas, por acaso, o desejo de devorar o mundo não é exatamente a febre da juventude?

Com serenidade, meu pai me fez ver o quanto meus recursos eram limitados, e não apenas os financeiros. O tempo não permite que façamos tudo e, como me disse sucintamente, “algumas coisas vão ficar no tinteiro”. Quase uma década se passou desde aquela conversa e, por acaso, só fiz uma dessas coisas – quem estiver lendo isso poderá adivinhar qual.

A Pior Pessoa do Mundo
Conheça Julie, a protagonista mutável de ‘A Pior Pessoa do Mundo’ (Crédito: Crédito: Divulgação/Diamond)

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Não é que meu pai quisesse cortar minhas asas, mas talvez o maior mal da geração nascida entre 1980 e 1996 – que hoje tem entre 25 e 40 anos – é ter crescido e amadurecido carregando no bolso uma janela para a infinidade de possibilidades que a vida oferece. O mundo inteiro está à vista, e tudo nele parece tão atraente quanto possível. Não é mera coincidência que, nos primeiros segundos de ‘A Pior Pessoa do Mundo’, encontramos Julie com um telefone na mão.

No novo filme do diretor norueguês Joachim Trier, Julie começa a história precisamente aos vinte e poucos anos. No início, ela é uma estudante de medicina promissora, mas sentindo que sua paixão não é pelo corpo e sim pela mente humana, ela decide mudar para psicologia. Enquanto isso, ela tem um caso com um professor que, paradoxalmente, desperta nela mais desejo pelo corpo do que pela mente dele, o que a leva a declarar que seria uma fotógrafa melhor.

Em outras palavras, quando Zygmunt Baumann escreveu sobre o indivíduo na modernidade líquida, poderia muito bem estar escrevendo sobre Julie, uma jovem cuja única certeza na vida é não saber exatamente o que quer dela e, ao mesmo tempo, querer tudo: talvez seja fotógrafa, talvez tente a sorte como escritora, talvez entre em uma festa espontaneamente e se apaixone por acaso por um homem, enquanto mantém um relacionamento romântico com outro.

Mas, ao contrário do que o título pode sugerir, ‘A Pior Pessoa do Mundo’ não se posiciona criteriosamente contra o andar de sua protagonista ou de seus outros personagens. Como Trier coloca: “Parecia irônico chamar um filme sobre amor de ‘A Pior Pessoa do Mundo’, porque todo mundo em algum momento de um relacionamento acaba se sentindo assim”.

Porque, se a característica fundamental da modernidade líquida é a mudança constante e, portanto, a infinita possibilidade de aperfeiçoamento, o contrário também é verdadeiro: as pessoas, sempre mudando, nunca deixarão de ser falíveis, e todos nós nos machucaremos em algum momento. E não há nada de errado com isso.

A comédia romântica do século XXI

Com cinco longas-metragens em sua filmografia, Joachim Trier não é contrário a adotar convenções de gênero para abordar questões cotidianas, mas profundas, da condição humana. Com ‘Mais Forte Que Bombas’, um drama doméstico, o norueguês mergulha na vida de dois irmãos e do pai, viúvo, em crise pela memória da falecida mãe. Em seu filme anterior, ‘Thelma’, o diretor usa elementos do thriller sobrenatural para explorar a repressão da sexualidade em um contexto familiar e religioso.

‘A Pior Pessoa do Mundo’ já foi chamada de comédia romântica e, se ouvirmos Scott Meslow (autor do livro ‘From Hollywood with Love’, que cobre a história desse gênero cinematográfico), então ele é. “Comédia romântica é um filme em que 1) a trama principal foca em pelo menos uma história de amor romântico; e 2) o objetivo é fazer você rir pelo mesmo tanto que te faz você chorar.”

Neste caso, não temos uma, mas duas histórias de amor. Julie se envolve romanticamente com Aksel (Anders Danielsen Lie), um talentoso artista de novelas gráficas na casa dos 40 anos, que já está pensando em começar uma família. O acaso – talvez induzido por um pouco de insatisfação consciente – faz com que ela e Eivind (Herbert Nordrum) se aproximem em uma festa, e os dois inevitavelmente acabam se apaixonando depois de passar uma noite divertida de bate-papo, jogos e desafios, sem nunca chegar ao sexo.

Em poucas palavras: “garota conhece garoto, e algo atrapalha o relacionamento amoroso” (outro cara, neste caso), que é a fórmula básica de qualquer filme em um dos mais identificáveis gêneros cinematográficos ​​e, em muitas ocasiões, um dos mais previsíveis. O que não quer dizer que a comédia romântica não tenha inovado ao longo de sua história, mas Hollywood e Julia Roberts podem ter tido mais do que um impacto definitivo em nossas expectativas para esse gênero, pelo menos deste lado do Atlântico.

O interessante de ‘A Pior Pessoa do Mundo’ é que, apesar de ser bastante engraçado (realmente é), subverte essas expectativas, que geralmente são acompanhadas de resoluções relativamente simplistas e moralizantes.

A Pior Pessoa do Mundo
Infidelidade emocional e amor líquido em ‘A Pior Pessoa do Mundo’ (Crédito: Divulgação/Diamond)

O roteiro de Trier – co-escrito com seu colaborador frequente, Eskil Vogt – é responsável por oferecer um retrato completo da protagonista, seus interesses amorosos e circunstâncias, desconstruindo todas as implicações da busca por identidade, amor e da indescritível “felicidade”.

A história é dividida em um prólogo, 12 episódios e um epílogo, cada um abordando uma fase da vida de Julie e um aspecto de seu ser e seus relacionamentos. A primeira, por exemplo, explora a dinâmica de poder dentro da relação entre Julie e Aksel, bem como as expectativas vindas de fora (aqui está uma versão da pergunta típica “e quando você está pensando em ter filhos?”).

O segundo episódio em ‘A Pior Pessoa do Mundo’, em que Julie conhece Eivind, levanta questões sobre a natureza da verdadeira intimidade e os limites da infidelidade. Enquanto, na típica comédia romântica, a decepção recai sobre um beijo ou uma cama, aqui os personagens contam suas vidas, fazem perguntas desconfortáveis ​​e até vão juntos ao banheiro. Talvez a verdadeira infidelidade seja emocional (dizem que a última fronteira da intimidade não é sexo, e sim soltar um pum na frente do outro).

À medida que a história avança, ‘A Pior Pessoa do Mundo’ lança os personagens e suas decisões sob uma luz muito distante do julgamento moral: as circunstâncias mudam e elas evoluem com elas. Mesmo se eles se sentirem como o título diz, isso não significa que eles são. A vida simplesmente acontece.

Isso não significa que os atos não tenham repercussões. A cena de Julie correndo alegremente pelas ruas de Oslo congeladas no tempo – imediatamente icônica desde a estreia do filme em Cannes – poderia muito bem ser o epítome cinematográfico desse desejo irresistível de mudar de rumo sem o custo das consequências ou do tempo. No entanto, com o passar da vida, os personagens entendem que o tempo não volta.

Pelo tom animado e até irônico de sua história sobre a busca por identidade e propósito, ‘A Pior Pessoa do Mundo’ certamente será comparada a ‘Frances Ha’. Devido à sua estrutura episódica, pode até haver alusões a ‘(500) Dias com Ela’, provavelmente a comédia romântica favorita da geração citada inicialmente. No entanto, acabada a produção de espírito escandinavo, quando o arrependimento se insinua no filme de Trier, descobrimos que ele tem mais em comum com ‘Morangos Silvestres’ de Ingmar Bergman.

O amor e a morte em ‘A Pior Pessoa do Mundo’

‘A Pior Pessoa do Mundo’ é um filme sobre encontrar nossa vocação, buscar o amor e acreditar que o encontramos apenas para trocá-lo por outro, lidar com expectativas (de todos os tipos), entender como nossos relacionamentos passados ​​nos moldam, lidar com a nostalgia, se preocupar com tudo que pode dar errado, aceitar o que dá errado e modificar os planos de vida que achávamos imutáveis.

Pode parecer demais, mas ao mesmo tempo são coisas mundanas e profundamente identificáveis, uma multiplicidade de caminhos que levam ao mesmo destino: o amor e a morte, os dois elementos mais absolutos da experiência humana.

O que não significa cair no lugar-comum de que ‘A Pior Pessoa do Mundo’ “é um filme universal”. Ao contrário, há um inegável ar de privilégio econômico na leveza com que Julie decide, como se não fosse nada, mudar de carreira duas vezes e queimar as becas e as economias da mãe para se financiar (depois ela passa a trabalhar em uma livraria para se sustentar).

No entanto, ‘A Pior Pessoa do Mundo’ é, antes de tudo, uma história que terá um eco profundo na geração nascida na modernidade líquida, sempre mudando – com um tanto de egocentrismo – dos tempos convulsivos de incerteza. Provavelmente vamos nos arrepender de muitas coisas. Mas, ao longo do caminho, podemos ser capazes de sair do ego, para aprender a enfrentar o amor e a morte.

Assim é a vida, e então, os erros fazem parte dela. A questão não será evitar esse arrependimento a todo custo, mas aprender a abraçá-lo e aceitá-lo como parte da única certeza da experiência humana: que sempre seremos caóticos, mutáveis ​​e infinitamente perfectíveis.

Para saber mais sobre ‘A Pior Pessoa do Mundo’, incluindo trailer e onde assistir ao filme, clique aqui.

Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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