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‘Adão Negro’ é uma cansativa jornada pelos clichês da DC no cinema

Ao não saber se é sério ou divertido, o novo filme baseado nas HQs da DC é confuso, esquecível e visualmente entediante

20 de outubro de 2022 18:52
- Atualizado em 21 de outubro de 2022 15:49

De Hércules a Superman, a forma como são contadas as trajetórias dos grandes heróis pouco mudou no decorrer da história humana. Com alguns retoques aqui e ali, elas basicamente seguem o chamado Monomito, a famosa Jornada do Herói. É por isso que, muitas vezes, você sente aquela espécie de déjà vu toda vez que se depara com um relato do gênero – e, quando esse padrão é quebrado, podemos ter algo genuinamente surpreendente ou desastre completo.

Adão Negro‘, filme baseado no personagem homônimo e que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta (20), falha miseravelmente em conseguir qualquer uma dessas duas reações. Ao pretensiosamente tentar apresentar a sua versão para o Monomito, acaba se tornando extremamente formulaico e cheio de clichês, lembrando em alguns momentos o pior do trabalho de Zack Snyder (diretor de ‘Batman vs. Superman‘).

Não dá para dizer que a Warner Bros. Pictures, a DC Films e o principal astro do longa, Dwayne “The Rock” Johnson, não se esforçaram. O longa-metragem ficou anos em gestação, com o ator praticamente pegando o projeto “pela unha” para criar para si uma franquia super-heróica que traga a grande bilheteria que a sua carreira precisa.

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A aposta fazia sentido: enquanto a WB pouco arrisca com as propriedades dos quadrinhos da DC Comics (tirando exceções pontuais, é quase tudo derivado da trindade Superman, Batman e Mulher-Maravilha), a Marvel Studios fez personagens como Homem-Formiga e Os Guardiões da Galáxia decolarem. O Adão Negro tinha esse potencial para ser algo diferente, pelos lados do estúdio do Pernalonga.

Adão Negro é a grande aposta de The Rock para emplacar uma franquia de super-heróis no cinema (crédito: divulgação / Warner Bros.)
‘Adão Negro’ é a grande aposta de The Rock para emplacar uma franquia de super-heróis no cinema (crédito: divulgação / Warner Bros.)

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Isso começa pela própria trajetória do personagem nos gibis. Criado em 1945 como um vilão do herói Capitão Marvel (que, mais recentemente, assumiria o nome de Shazam) pela editora Fawcett Comics, o Adão Negro foi redescoberto e revitalizado nos 2000, quando já era uma propriedade da DC.

Na visão dos roteiristas Geoff Johns e David Goyer, Teth-Adam foi o herói do fictício país norte-africano chamado Kahndaq e que, após ver sua família assassinada, é corrompido pelo poder e assume o trono de sua terra natal. Ele acaba derrotado pelo mago que lhe deu poderes, chamado Shazam, e é preso pelos milênios seguintes – até ser libertado na nossa era.

No presente, os roteiristas estabelecem o Adão Negro não como um vilão, mas sim como um anti-herói com um senso de justiça extremamente militaresco, que o aproxima de correntes mais nacionalistas e de extrema direita, mas dentro de um contexto de empoderamento africano contra as grandes forças do pós-neocolonialismo.

Um personagem complexo, que é colocado frente a frente da Sociedade da Justiça da América – a mais tradicional equipe de super-heróis da DC, que representa aquela visão idealizada de verdade e justiça (tendo, inclusive, lutado na Segunda Guerra Mundial).

Por tudo isso, este é um herói que claramente rompe com a Jornada do Herói. Mais do que isso: ele anteviu muito da movimentação política que ocorreria a partir dos anos 2010, introduzindo histórias e pautando discussões que são, hoje, extremamente atuais.

Mas você pode apagar tudo isso ao entrar no cinema. Afinal, estará vendo agora a versão hollywoodiana de Adão Negro.

Entra The Rock

Os roteiristas Adam Sztykiel, Rory Haines e Sohrab Noshirvani, junto com o diretor Jaume Collet-Serra (de ‘Jungle Cruise‘), até que tentam, misturando a versão dos anos 2000 com uma encarnação mais recente nos gibis. Dessa forma, colocam Teth-Adam como esse escravo alçado à condição de herói pelo poder de Shazam e de outros magos, se revoltando contra a opressão do líder de Kahndaq – e, após essa batalha final, ficando preso por milênios.

Ele é libertado Adrianna Tomaz (Sarah Shahi), que se revolta contra o domínio da Intergangue, uma organização estrangeira que domina o país quase que como uma milícia paramilitar. O objetivo dos vilões é recuperar uma coroa dos tempos de Adam, algo que daria grande poder.

Adão Negro: a Sociedade da Justiça, que poderia ser um trunfo do filme, é mal utilizada e tem função genérica no roteiro (crédito: divulgação / Warner Bros.)
A Sociedade da Justiça, que poderia ser um trunfo do filme, é mal utilizada e tem função genérica no roteiro (crédito: divulgação / Warner Bros.)

Em meio a esse caos, o herói-título passa a matar todos os inimigos sem pensar duas vezes, enquanto tenta entender qual é a sua função no século XXI. Isso fica mais complexo quando Amanda Waller (Viola Davis) manda nada menos que a Sociedade da Justiça até o país africano para deter o Adão Negro. Dessa forma, o time é usado como ferramenta para criticar o imperialismo de conveniência dos americanos (afinal, o Waller nunca se preocupou com a opressão da Intergangue).

É aqui que o roteiro se perde de vez. Sem saber para onde colocar o seu olhar crítico, acaba tendo uma visão míope do imperialismo (do qual, vamos combinar, Hollywood faz parte) e não consegue efetivamente nos fazer refletir sobre as ações do protagonista. Entra-se em um campo perigoso, no qual a história pode causar mais ruído na cabeça de quem assiste do que qualquer coisa.

Tudo isso só não é pior que o fato de que a grande revelação do filme, que marca a transição do segundo para o terceiro ato da história, já havia sido antecipada nos trailers. Um spoiler oficial do departamento de marketing da Warner.

Mas tudo isso realmente importa?

Vamos ser sinceros: existe uma enorme diferença entre os problemas que o crítico de cinema vê e aquilo que o público, principalmente os fãs, vão achar do longa.

Acontece que, no caso de ‘Adão Negro’, são erros que acabam interferindo diretamente naquilo que o espectador procura: diversão. Com um roteiro e um protagonista complexos para o pouco tempo de desenvolvimento, o filme não sabe se quer ser sério ou bem-humorado. Se perde em inúmeros flashbacks e narrações em off, com personagens que não conseguem se relacionar com o público. Quando cansa de si mesmo, corre e apresenta o maior número de cenas de luta possíveis, sem muito nexo entre elas. Acaba sendo uma experiência exaustiva para quem assiste.

Piora: ao propor problemas complexos e apresentar soluções simplistas, o último ato soa como uma enorme vergonha alheia.

Nem a presença de Pierce Brosnan como Senhor Destino consegue salvar 'Adão Negro' (crédito: divulgação / Warner Bros.)
Nem a presença de Pierce Brosnan como Senhor Destino consegue salvar ‘Adão Negro’ (crédito: divulgação / Warner Bros.)

Em meio a tudo isso, The Rock não empolga. Sabemos que Johnson não tem lá uma grande profundidade de atuação. Porém, ao embarcar em um personagem cheio de nuances como Adão Negro, é importante ressaltar cada camada da transformação do herói, nessa transição no decorrer de uma história de redenção. O astro, ao menos, continua fazendo o que sabe melhor: dar porrada.

A parte final do longa é aquilo com o qual já nos acostumamos: uma tela que transborda animação em computação gráfica, sem qualquer lógica, incluindo uma beleza estética e uma câmera lenta que deixariam Zack Snyder com inveja (o que não é um elogio, devo frisar). Porém, os efeitos especiais são corretos e as lutas, por mais que pudessem ser melhor coreografadas, funcionam.

A essa altura, a falta de rumo e consistência da Warner Bros. com os filmes da DC é notória. Agora, se produções como ‘Lanterna Verde‘ e ‘Batman vs. Superman’ entraram para a nossa memória por gerar uma verdadeira ojeriza do público (para não dizer ódio), ‘Adão Negro’ nem isso conseguirá.

Provavelmente, Adão Negro, tanto filme quanto o personagem, ficarão em breve fadados ao limbo da Pedra da Eternidade. Uma pena.

‘Adão Negro’ está em cartaz nos cinemas. Clique aqui para conferir mais informações e encontrar o link para a compra de ingressos.