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‘Halloween Ends’: trauma, “terror sofisticado” e um pouso turbulento

‘Halloween Ends’ concluiu a trilogia que começou em 2018 e põe fim à história de Laurie Strode e Michael Myers

Lalo Ortega   |  
17 de outubro de 2022 16:49
- Atualizado em 18 de outubro de 2022 18:04

Por ocasião da estreia de ‘Halloween Ends’, que chegou aos cinemas no último fim de semana, o The AV Club sentou-se com John Carpenter, diretor do filme original de 1978 – além de produtor executivo e compositor deste último capítulo, que conclui a trilogia começou com a leve reimaginação de 2018.

“Você está familiarizado com o termo ‘alto terror’?”, perguntou o entrevistador, referenciando a sofisticação de alguns títulos do gênero.

“Eu não sei o que isso significa”, respondeu Carpenter. “Quero dizer, eu poderia adivinhar o que significa, mas eu realmente não sei.”

“As pessoas costumam usá-lo para se referir a filmes do estúdio A24, ou horror que é fortemente carregado de metáforas”, esclareceu o entrevistador. “‘Hereditário‘, ‘Midsommar‘, esses tipos de filmes.”

É uma resposta tão irônica quanto reveladora de alguém que é considerado um dos mestres do horror, responsável pelo longa-metragem que fundou o subgênero “slasher”. Claro, Carpenter criou um dos títulos mais importantes do gênero com ‘Halloween: A Noite do Terror’, mas além de estabelecer suas convenções, ele não tinha aspirações maiores do que fazer de Michael Myers uma personificação da ideia abstrata de um “mal” animalesco, tão imprevisível quanto destemido e implacável.

Em 1978, John Carpenter praticamente criou as convenções dos filmes de slasher e dois de seus grandes ícones (Crédito: Compass International Pictures)

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Quatro décadas (e dois reboots) depois, o diretor David Gordon Green conclui a história que começou com seu ‘Halloween’ de 2018, que ignorou todas as sequências anteriores (e sua mitologia bagunçada), exceto o original, para o qual ele serve como sequência.

O diretor aqui propôs uma história mais simples em sua superfície, embora com um subtexto que se baseia na ideia de Michael Myers como o mal encarnado. A trilogia de Green é uma história sobre medo, trauma geracional e coletivo e a possibilidade de cura individual e como sociedade. Alto terror?

Em ‘Halloween’ (2018), vemos como os acontecimentos de ‘Halloween’ (o original, de 1978) marcaram Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) com estresse pós-traumático, fato que afetou sua vida familiar e é descaradamente explorado pela mídia.

Sua sequência, ‘Halloween Kills‘, retoma a história exatamente de onde seu antecessor parou e tem a audácia de colocar Laurie no banco de trás para se concentrar no trauma coletivo. Um conjunto de moradores de Haddonfield – vítimas diretas ou indiretas de Myers – unem forças para tomar a lei em suas mãos e lutar contra o assassino diante do fracasso das forças policiais (com as terríveis consequências que isso acarreta).

Neste novo filme, os roteiristas Green, Paul Brad Logan, Chris Bernier e Danny McBride contam uma história sobre as consequências do medo, preconceito e marginalização instigados por esse trauma social.

No papel, parece ser uma progressão temática lógica, fascinante e bem amarrada para uma das maiores franquias do terror cinematográfico. Mas ‘Halloween Ends’ tem dois problemas: estar repleto de ideias que contradizem os temas de seus antecessores e tornar seus dois personagens mais importantes irrelevantes, apenas para encaixá-los em sua conclusão.

‘Halloween Ends’ não sabe que história contar

Antes de continuar de onde a história parou no filme anterior, a terceira parte da trilogia nos apresenta um novo personagem: Corey Cunningham (Rohan Campbell), um jovem que acidentalmente mata uma criança enquanto tomava conta dele uma noite. O estigma o condena a ser um pária sem perspectivas até que o acaso o coloca no caminho de Laurie, outra pária. Ela fica com pena dele e o apresenta a sua neta, Allyson (Andi Matichak).

Halloween Ends abandona seus personagens centrais em favor do novato Corey (Crédito: Universal Pictures)
Halloween Ends’ abandona seus personagens centrais em favor do novato Corey (Crédito: divulgação / Universal Pictures)

Isso acontece quatro anos após a última onda de assassinatos de Michael Myers, que desapareceu sem deixar vestígios após assassinar a filha de Laurie, Karen (Judy Greer). Agora, em vez de ser uma sobrevivente paranóica de que o agressor está ao virar da esquina, Laurie é uma avó que deixou o passado para trás, cozinha tortas, escreve um livro e divide uma casa com a neta.

É uma resolução que se enquadra nas ideias de ‘Kills’, que explora as consequências de combater fogo com fogo. Se o primeiro capítulo da trilogia propõe que você tenha que enfrentar a fonte do trauma para superá-lo (no processo ressignificando a “final girl” e “scream queen” por excelência), o segundo (com seu roteiro cheio de metáforas óbvias e diálogos afetados) propõe que não devemos sucumbir ao ódio e à histeria.

Assim, ‘Halloween Ends’ praticamente deixa de lado e aposenta Laurie Strode pela maior parte de sua narrativa. Em vez disso, o enredo se concentra no romance repentino entre Allyson e Corey, este último moralmente castrado por uma mãe dominadora, assediado por valentões locais e constantemente assombrado pelo peso da culpa. Sua instabilidade psicológica cresce a cada minuto e, por razões que o roteiro nunca deixa claro, a outrora brilhante Allyson não pode deixar de amá-lo cada vez mais.

E onde Michael Myers entra nisso tudo? Surpreendentemente, o vilão icônico da saga não tem muito o que fazer aqui. Para não revelar, basta dizer que o ‘Halloween Ends’ brinca com a ideia de que a essência do mal de Myers pode se espalhar (por “infecção”, como diz certo personagem) pela alienação ao que submetemos os outros por nossos medos e preconceitos.

Ainda que seja uma abordagem interessante, não demora muito para o roteiro a jogar fora quando, mais tarde, o filme questiona (e depois responde a si mesmo) se tal mal nasceu ou foi feito. Uma simplificação grosseira de uma questão complexa explorada pelos dois longas anteriores.

Corey é um produto indireto da histeria coletiva retratada em 'Halloween Kills' (Crédito: divulgação / Universal Pictures)
Corey é um produto indireto da histeria coletiva retratada em ‘Halloween Kills’ (Crédito: divulgação / Universal Pictures)

É um pouco confuso, então, que a promoção deste filme gire em torno do confronto final entre Laurie e Michael, quando eles próprios são quase irrelevantes para todo o enredo. Quando o encontro tão esperado chega (e vamos lá, não é spoiler), parece um anticlímax: essa história não é sobre eles. Para Laurie, deixou de ser desde o capítulo anterior.

É uma pena, porque ‘Halloween’ (2018) prometia muito. Se a primeira parte da trilogia foi um salto ousado para o “alto terror” (o que quer que isso signifique) que é encontrado na segunda parte, este ‘Halloween Ends’ é um pouso turbulento, o equivalente a cair de cabeça e quebrar o pescoço. É torcer para que Michael Myers não se levante novamente.

‘Halloween Ends’ está nos cinemas. Se você quiser saber mais sobre o filme ou encontrar o link para comprar ingressos, clique aqui.

Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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