ELLEN DEGENERES

Como é por dentro do Dolby Theatre, a casa do Oscar?

Conheça o Teatro Dolby, que todos os anos recebe as estrelas do cinema mundial – e que tem muito mais segredos do que você imagina

21 de março de 2022 17:37
- Atualizado em 23 de março de 2022 12:53

As maiores estrelas do cinema desfilando em um só tapete vermelho, sendo observados por quase 1 bilhão de telespectadores em todo o mundo. Essa é a realidade da Hollywood Boulevard uma vez ao ano, quando acontece a mais importante premiação do cinema mundial: o Oscar. Tão relevante quanto a festa e os famosos que comparecem nela também é o local que recebe a premiação – o Dolby Theatre, ou Teatro Dolby, em português. 

Como você já leu na nossa série especial, o Academy Awards foi criado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas em 1929 – e desde então aconteceu nos mais diversos locais. O primeiro foi em um dos salões do Hollywood Roosevelt Hotel e, através das décadas, foi realizado no Chinese Theatre, Pantages Theatre, Dorothy Chandler Pavilion e o Shrine Auditorium.

A entrada do Hollywood and Highland Center que dá acesso ao Dolby Theatre (Foto: Flickr / Adam Fagen)
A entrada do Hollywood and Highland Center que dá acesso ao Dolby Theatre (Foto: Flickr / Adam Fagen)

Já na segunda metade dos anos 1990 começou um movimento para que o Oscar tivesse uma casa própria. O local escolhido não poderia ser mais icônico: o terreno do velho Hollywood Hotel, que foi um dos pioneiros na ocupação do bairro de mesmo nome e que hospedou grandes nomes da indústria – incluindo pioneiros como Louis B. Mayer (da MGM) e Harry Warner (um dos irmãos Warner), além do astro do cinema mudo Rudolph Valentino e muitos outros. 

O local do teatro
é quase sagrado para
a história do cinema

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Ali foi erguido mais do que um teatro, e sim um complexo comercial que recebeu o nome de Hollywood & Highland Center. Na mesma quadra estão o Chinese Theatre, o também famoso cinema El Capitan e a filial de Hollywood do Madame Tussauds, entre outros pontos turísticos. 

A arquitetura é inspirada no cenário de Babilônia do filme ‘Intolerância’, que é considerado um dos marcos do cinema mudo e um dos primeiros fracassos financeiros da sétima arte – e também ligado a causas racistas. É que o cineasta D. W. Griffith produziu o longa como resposta às crítica a outro filme dele, ‘O Nascimento de Uma Nação’, que retrata a Ku Klux Klan original, influenciando a refundação do grupo racista.

O lado "shopping" do complexo que recebe o Oscar (Foto: Flickr / David Merrett)
O lado “shopping” do complexo que recebe o Oscar (Foto: Flickr / David Merrett)

Até por isso, os mantenedores do espaço começaram em 2021 uma reformulação dessa arquitetura, inicialmente tirando os característicos elefantes da praça principal. Ao todo, US$ 100 milhões serão investidos na reforma, que pretende deixar o Hollywood & Highland Center mais atemporal e tem previsão de conclusão para o verão de 2022.

Além da já citada praça central, o local possui 70 lojas e 25 restaurantes, mais um cinema (que também atende pelo nome de Chinese Theatre). Também faz parte do complexo o Loews Hollywood Hotel, que tem 637 quartos — e a estação Hollywood Highland da linha vermelha do metrô fica anexa. 

Uma das entradas do centro comercial é um imenso lobby que traz, entre outras coisas, a estrela da Calçada da Fama de Muhammad Ali (a única a ficar em uma parede, e não no chão) e, em suas colunas, os títulos de todos os longas-metragens que venceram o Oscar de Melhor Filme, com espaço para mais adições até 2071.

Esse mesmo acesso leva à uma grande escadaria e à entrada principal do Dolby Theatre – e é a entrada dos astros no dia do Academy Awards.

Mas já vamos chegar nisso…

Por essas escadas passam as estrelas de Hollywood no dia do Oscar (Foto: Renan Martins Frade)
Por essas escadas passam as estrelas de Hollywood no dia do Oscar (Foto: Renan Martins Frade)

Preparativos para o Oscar

O teatro recebe o Oscar desde 2002, quando ainda se chamava Kodak Theatre por motivos de patrocínio. Na prática, a Academia aluga o local por quatro semanas e inicia um longo processo de transformação, escondendo as vitrines das lojas (o que acaba com a cara de shopping do local) e com a montagem da estrutura para a cerimônia. 

No mesmo período, a entrada passa a ser controlada – nem mesmo os funcionários habituais podem passar se não tiverem a credencial certa. 

Na quadra da Hollywood Boulevard são montadas diversas “operações” na rua, com as calçadas abertas para o livre acesso, inclusive para o resto do complexo que continua operando. Depois, no fim de semana do evento, tudo é fechado. Ninguém pode entrar ali se não tiver uma credencial de trabalho, imprensa ou convite para a cerimônia.

Há uma única exceção: o público que fica em uma arquibancada na rua, vendo o tapete vermelho. Essas entradas são gratuitas e distribuídas via internet, mas são bastante concorridas e difíceis de conseguir. 

A Hollywood Boulevard sendo preparada para o tapete vermelho do Oscar (Foto: Flickr / Loren Javier)
A Hollywood Boulevard sendo preparada para o tapete vermelho do Oscar (Foto: Flickr / Loren Javier)

A entrada, no dia da cerimônia do Oscar, também é bem difícil. Cada um dos indicados recebe apenas dois convites, sendo um para si e outro para o acompanhante, e ainda pode pedir mais dois adicionais. O apresentadores também recebem dois. Há ainda os convidados da Academia, gente com rosto conhecido pelo público, que engrandecerá a transmissão na TV e que não foi indicado naquele ano – como o Brad Pitt, por exemplo.

Mais alguns ingressos são distribuídos entre os estúdios, (teoricamente) de forma proporcional ao número de indicações que receberam – no entanto, os pequenos distribuidores costumam reclamar que as majors recebem um número maior de entradas. É bom ressaltar que esses ingressos, mesmo que oferecidos pela Academia, são pagos.

Um ingresso pode
custar até US$ 750,
ou R$ 3.710

Dos 3.400 lugares sobra a metade, que é distribuída para os 9.487 membros da Academia em regime de loteria. Como você já leu aqui no Filmelier, essas são pessoas que vão desde atores e diretores de sucesso a produtores, maquiadores, especialistas em efeitos especiais e muitos outras que trabalham na indústria do cinema. Depois de sorteado, o felizardo também precisa pagar pelo ingresso.

O lobby da Union Station de LA, que tem influência da art déco em sua arquitetura (Foto: Renan Martins Frade)
O lobby da Union Station de LA, que tem influência da art déco em sua arquitetura (Foto: Renan Martins Frade)

Isso tudo, claro, em um ano comum. Em 2021 houve o grande desafio da pandemia da covid-19, e boa parte dos apresentadores não esteve presente no Dolby Theatre. O número de pessoas no local foi drasticamente reduzido, praticamente sem convidados, enquanto grande parte da cerimônia ocorreu na Union Station – estação de trens também localizada em Los Angeles.

No dia da festa

Depois de mostrar o convite e a identidade na entrada da quadra, o convidado tem dois tapetes vermelhos para andar até o Dolby Theatre: um, mais rápido, para quem não é famoso ou não curte muitos flashes; o outro, mais demorado, é o caminho no qual há a imprensa credenciada para cobrir o red carpete, que vai abordando as pessoas nos famosos pre-shows. Tem gente que pode perder cerca de uma hora apenas para percorrer esses poucos metros.

A estrela então entra no Hollywood and Highland Center e sobe a chamada Grande Escadaria, adentrando o Dolby Theatre em si. Todas essas escadas, tanto fora quanto dentro do teatro, possuem degraus baixos, ajudando as mulheres com longos vestidos ou quem exagerou na bebida.

A verdadeira entrada do teatro (quando ainda se chamava Kodak Theatre), dentro do complexo, já bloqueada e sendo preparada para o Oscar (Foto: Flick / Gordon Wrigley)
A verdadeira entrada do teatro (quando ainda se chamava Kodak Theatre), dentro do complexo, já bloqueada e sendo preparada para o Oscar (Foto: Flick / Gordon Wrigley)

Já lá dentro são três andares para subir, cada um com um grande hall com fotos de edições anteriores do Oscar, bares e uma sala VIP chamada Dolby Lounge – sim, existem VIPs até mesmo entre os VIPs. Tudo pensando e distribuído para facilitar a circulação.

Falando nos bares, as bebidas alcoólicas são gratuitas até um certo momento antes do início da festa, fazendo com que os convidados passem logo pelo tapete vermelho, e a cobrança vai sendo feita de forma escalonada em cada um dos pontos, o que também faz com que os convidados subam as escadas para buscar bebida no próximo bar. Isso até que a cobrança é feita em todos os pontos – e todos vão para os seus lugares, já que a cerimônia está perto de começar.

Tal procedimento destoa bastante do Globo de Ouro, por exemplo, que acontecia no Beverly Hilton e tradicionalmente tinha bebida de graça durante toda a premiação, incluindo serviço de mesa para os convidados – o que tende a render cenas engraçadas ou constrangedoras. 

Percorrido todo o trajeto, a entrada na plateia acontece por meio de uma rampa. Lá, os convidados importantes (como diretores, atores, produtores dos filmes indicados, etc.) ou que pagaram mais caro ficam no nível mais baixo, enquanto os outros membros da Academia ficam nos níveis superiores, sem acesso ao palco.

O Dolby Theatre em dia de Oscar (Foto: Flickr / Walt Disney Television)
O Dolby Theatre em dia de Oscar (Foto: Flickr / Walt Disney Television)

A posição na qual os indicados e apresentadores sentam é estudada por semanas. Basicamente, eles ficam ou na primeira fileira ou nos corredores, facilitando na hora de levantar para apresentar/buscar o prêmio – o que salva preciosos minutos da transmissão (que passa das 3h de duração).

Uma coisa você deve ter reparado: nunca há lugares vazios na plateia do Dolby Theatre. As pessoas não levantam, nem pra ir ao banheiro ou ao bar? Mas é claro que sim. Para isso não ficar feio existe os chamado “seat fillers”, que é, por exemplo, aquele cara que ocupa o assento do Leonardo DiCaprio quando ele precisar dar aquela escapada, ou mesmo está no palco apresentando uma categoria.

Chega o grande momento: o ator/atriz/diretor/produtor vence o prêmio. Ele ou ela vai até o palco, pega a estatueta, faz o discurso e… Volta para o seu lugar? Não exatamente. Se não tiver algo importante em seguida (como outra indicação ou apresentação de categoria), o vencedor ou vencedora segue por um corredor ao lado do palco. Depois de uma caminhada, é hora de encontrar a imprensa no Loews Hollywood Hotel, que está esperando para uma rápida entrevista coletiva e para tirar algumas fotos. 

Charlize Theron no backstage do Oscar, aguardando o momento de apresentar uma das categorias da premiação (crédito: AMPAS)
Charlize Theron no backstage do Oscar, aguardando o momento de apresentar uma das categorias da premiação (Foto: divulgação / AMPAS)

Teoricamente, nenhum jornalista pode entrar no Dolby Theatre no dia do Oscar. Quando alguém diz que está “dentro da festa”, normalmente está se referindo ao corredor antes de entrar no teatro ou no citado hotel anexo. 

Porém, é possível ter acesso direto à cerimônia se o repórter for como o “mais um” de algum convidado ou se for um membro da Academia que faz um “bico” na imprensa.

After party

O Academy Awards começa bem cedo, por conta da diferença de fuso horário entre as Costas Leste e Oeste dos Estados Unidos: 17h, no horário de Los Angeles – 21h em Brasília. Quando tudo acaba, ainda são 20h30 em LA. 

Habitualmente, depois da cerimônia há uma festa oficial, chamada de Governors Ball, que acontece no quinto andar do Hollywood and Highland Center – que é transformado e fica irreconhecível. 

Cerca de 1.500 pessoas conseguem acesso à essa festa, incluindo vencedores, indicados e apresentadores do Academy Awards – além de representantes da imprensa. Aliás, é lá onde os vitoriosos do ano finalmente têm o seu nome gravado na estatueta – o que ficou bem famoso há alguns anos, em um vídeo que mostra Leonardo DiCaprio finalmente tendo a chance de ver o seu nome imortalizado em um Oscar.

Há inúmeras outras festas acontecendo por Hollywood e adjacências na mesma noite, muitas organizadas pelos estúdios – onde convidados deles e funcionários têm a oportunidade de confraternizar com as estrelas – ou por veículos, como a Vanity Fair, e até mesmo por produtores.

Com tudo isso, certamente a fome pós-festa irá bater. Uma dica é fazer como o Ang Lee, que, em 2013, foi comer um hambúrguer no In’n’Out após receber o Oscar de Melhor Diretor por ‘As Aventuras de Pi’.

Ang Lee comemorando o Oscar enquanto mata a vontade de comer um Double-Double (crédito: Twitter / @EMenicheschi)
Ang Lee comemorando o Oscar enquanto mata a vontade de comer um Double-Double (Foto: Twitter / @EMenicheschi)

Artigos anteriores da série:

– O que é a Academia e quem vota no Oscar?
– Como começou o Oscar?
– Qual é o processo de qualificação de um filme para o Oscar?
– Como são escolhidos os indicados e vencedores do Oscar?

Próximo artigo da série:

As verdades (nada) secretas do Oscar

Matéria originalmente publicada em 4 de fevereiro de 2020 e atualizada com informações de 2022.

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