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Com ‘O Telefone Preto’ e ‘Cavaleiro da Lua’, 2022 é o grande ano de Ethan Hawke

Com sucessos na bagagem como ‘Sociedade dos Poetas Mortos’, ‘Dia de Treinamento’ e a Trilogia do Antes, Ethan Hawke mostra que ainda tem “lenha pra queimar”

Matheus Mans   |  
25 de julho de 2022 13:10
- Atualizado em 26 de julho de 2022 13:42

Ethan Hawke é, sem dúvidas, um dos grandes nomes do audiovisual em 2022. Afinal, o norte-americano está no elenco do filme épico ‘O Homem do Norte‘, da série ‘Cavaleiro da Lua’ e, desde a última quinta-feira, 21, está nos cinemas como um serial killer no tenso ‘O Telefone Preto‘. Dirigido por Scott Derrickson (do assustador ‘A Entidade’), o longa-metragem traz Hawke em uma das atuações mais fortes e emblemáticas da carreira, cheia de gestuais assustadores.

Mas, para chegar neste ponto que pode ser um dos auges na carreira do norte-americano, Hawke passou por uma carreira cheia de altos e baixos, desde filmes premiados, romances sensíveis e marcantes e até bombas inacreditáveis.

A carreira de Ethan Hawke

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O primeiro papel de Ethan Hawke foi aos 15 anos, quando foi um dos protagonistas de ‘Viagem ao Mundo dos Sonhos’. Não foi um grande sucesso, passando à margem dos lançamentos daquele longínquo 1985, mas foi o cartão de visitas para o filme que viria a ser um dos mais celebrados da carreira do ator. ‘Sociedade dos Poetas Mortos‘, quatro anos depois, trouxe um Ethan Hawke mais maduro em uma trama sensível sobre vida, educação e rebeldia.

Ethan Hawke está brilhante, mesmo tão jovem, em 'Sociedade dos Poetas Mortos' (Crédito: Divulgação/20th Century Studios)
Ethan Hawke está brilhante, mesmo tão jovem, em ‘Sociedade dos Poetas Mortos’ (Crédito: Divulgação/20th Century Studios)

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Apesar do protagonismo indiscutível de Robin Williams em um dos melhores papéis da carreira e da força do personagem de Robert Sean Leonard, Hawke conseguiu atrair para si alguns dos melhores momentos do longa. É impossível assistir ao filme e não ficar com a última cena marcada na memória, com o personagem de Ethan Hawke subindo na carteira da sala de aula e, em um gesto de protesto marcante, protegendo aquele professor demitido.

Depois disso, na primeira metade dos anos 1990, Ethan Hawke pareceu um pouco perdido na carreira. Fez alguns filmes sem muita pretensão (‘Caninos Brancos’, ‘Que Garota, que Noite’), uma ou outra comédia (‘Floundering’), um bom drama de sobrevivência (‘Vivos’) e uma inusitada (e boa) comédia romântica com Ben Stiller e Winona Ryder (‘Caindo na Real’). Um outro grande filme na carreira de Hawke viria em 1995, com o belo ‘Antes do Amanhecer‘.

Trilogia ‘Antes’

Aqui, abrimos um parênteses e deixamos de falar da carreira do ator em ordem cronológica para falar de um dos melhores filmes de sua carreira e um dos maiores romances da História. Dirigida por Richard Linklater, a trilogia é composta por ‘Antes do Amanhecer’ (1995), ‘Antes do Pôr-do-Sol’ (2004) e ‘Antes da Meia-Noite’ (2013). Ele é Jesse, rapaz que convida uma desconhecida (Julie Delpy) para fazerem uma viagem de uma noite. Amor à primeira vista.

Depois disso, Linklater, o mestre do tempo e dos diálogos, trouxe histórias desse casal a cada nove anos. Sem muitas invencionices, o cineasta e roteirista segura tudo nos diálogos. Nós, do outro lado da tela, ficamos sedentos em acompanhar aquelas conversas e nos apaixonamos juntos por Jesse e Celine. Difícil não torcer por um beijo, para que as coisas acabem bem, para que eles se encontrem na estação de trem no ano seguinte, que eles se amem de fato.

Um dos casais mais amados do cinema em 'Antes do Pôr-do-Sol' (Crédito: Divulgação/Warner Bros.)
Um dos casais mais amados do cinema em ‘Antes do Pôr-do-Sol’ (Crédito: Divulgação/Warner Bros.)

Muito disso acontece pela química de Hawke e Delpy. Os dois funcionam em cena e, aqui, o ator norte-americano encontrou seu par. Sua metade da laranja. Nunca houve nenhum par tão magnética em cena como Jesse e Celine.

Entre o ‘Antes’, Ethan Hawke se perde

Depois, no começo dos anos 2000, Ethan Hawke faria o filme que o premiaria. Em ‘Dia de Treinamento’, ele interpreta um agente de narcóticos em seu primeiro dia de trabalho que, com ideias pré-concebidas de como seria a sua rotina, acaba batendo de frente com seu parceiro (Denzel Washington), um policial experiente e que não age conforme a cartilha. Foi sua primeira indicação ao Oscar, como Melhor Ator Coadjuvante. Perdeu pra Jim Broadbent por ‘Iris’.

Depois disso, Ethan Hawke entrou em uma espiral de escolhas erradas em sua carreira. Ele se tornou figurinha marcada em filmes de ação de quinta categoria, fracos de história, estética e atuações, como ‘Roubando Vidas’, ‘Assalto ao 13° Distrito’ e ‘Estranha Obsessão’. Ainda conseguiu acertar com alguns filmes policiais bons, como ‘O Senhor das Armas’ e o poderoso ‘Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto’, último filme dirigido pelo grande cineasta Sidney Lumet.

Mas, no período, o acerto era exceção. Até que, na virada dos anos 2010, Hawke encontra sua personalidade novamente. Com ‘A Entidade’, filme do próprio Scott Derrickson, o americano passa a embarcar em projetos ousados. Além disso, adota de vez a naturalidade (às vezes brutal) como norte de seus personagens. O dente torto na boca, aliás, comprova isso: ele mesmo já disse que não arruma um dente sobre o outro para passar naturalidade.

Ousadia e alegria

De 2010 pra cá, Ethan Hawke trabalhou como nunca — nos últimos 12 anos, ele foi creditado em mais de 40 projetos audiovisuais. Claro que existem coisas medianas dentre essas produções, como ‘Cymbeline’, ‘Good Kill: Máxima Precisão’ e ‘Regressão’. No entanto, ao longo desses anos, com projetos mais ousados e com Ethan Hawke cada vez mais solto em cena, ele começa a encontrar um caminho mais claro. Aceita projetos que não ficam no lugar-comum.

É o caso de ‘O Predestinado’, ficção científica que brinca com tempo e sexualidade. Hoje, quase dez anos depois, a história envelheceu mal, mas mostra que o ator está disposto. Também esteve no simpático ‘Maggie Tem Um Plano’, surpreendeu em um papel dramático fora da curva com a biografia ‘Maudie: Sua Vida e Sua Arte‘ e lançou ‘Boyhood: Da Infância à Juventude’, projeto gestado por décadas. Com este filme, também de Richard Linklater, ele recebeu sua segunda indicação em atuação, de novo por Melhor Ator Coadjuvante. Perdeu pra J.K. Simmons, por ‘Whiplash‘.

Ethan Hawke passa com naturalidade a figura de um pai em processo de amadurecimento (Crédito: Divulgação/Warner Bros.)
Ethan Hawke passa com naturalidade a figura de um pai em processo de amadurecimento (Crédito: Divulgação/Warner Bros.)

No entanto, fica a sensação que o grande divisor de águas na carreira de Ethan Hawke, que o colocou de volta no panteão de grandes estrelas de Hollywood após escolhas erradas, foi ‘Fé Corrompida‘. Ainda que não tenha feito todo o sucesso que merecia, o filme dirigido e roteirizado por Paul Schrader (‘O Contador de Cartas’) traz um personagem atormentado e cheio de camadas. Difícil não ficar convencido pela atuação certeira, dura e afiada de Ethan Hawke.

Vale dizer, também, que na vida pessoal Ethan Hawke sempre foi contido. Casou com Uma Thurman, tiveram filhos, se separaram, casou de novo, teve mais filhos. No entanto, sempre foi discreto e nunca se envolveu em polêmicas.

Competição por Ethan Hawke

Hoje, Ethan Hawke está trabalhando com diretores cobiçados, escolhendo projetos e embarcando no que ele acredita. Esteve em ‘A Verdade’, filme do premiado Hirokazu Koreeda; criou uma série de televisão premiada (‘The Good Lord Bird’), protagonizou um filme do cultuado cineasta Abel Ferrara durante a pandemia de covid-19 (‘Zeros e Uns’, estranhíssimo e repleto de momentos indecifráveis), e esteve em ‘O Homem do Norte’, do queridinho Robert Eggers.

Agora, olhar para os futuros lançamentos de Ethan Hawke é algo absolutamente fascinante. Está no novo filme de Michael Almereyda (‘Marjorie Prime’), um cineasta que não se contenta com o banal. É um dos protagonistas de ‘Raymond & Ray’, longa-metragem de Rodrigo García (‘Albert Nobbs’) com Ewan McGregor. Está no talentosíssimo elenco do segundo filme de ‘Entre Facas e Segredos’. Também está filmando ‘Leave the World Behind’, novo projeto de Sam Esmail (‘Mr. Robot’) com Julia Roberts, Kevin Bacon e Mahershala Ali. Por fim, está em um curta de Almodóvar.

Depois de uma carreira com certa instabilidade, Ethan Hawke parece ter achado o rumo definitivo. Faz projetos ousados, de diretores consagrados, mas não deixa de se desafiar. Obviamente topa algo mais raso de vez em quando (cof cof, ‘Cavaleiro da Lua’, cof cof), mas não deixa de ter projetos em que acredita. Por isso, fica aqui a certeza: 2022 é o ano de Ethan Hawke, que não deve parar mais. Não se surpreenda se vê-lo em premiações por aí muito em breve.

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