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‘Jurassic World: Domínio’: A longa e triste história das más ideias

O sexto filme da saga ‘Jurassic World’, ‘Domínio’ encerra a história e coloca os dinossauros para descansar… por enquanto

Lalo Ortega   |  
1 de junho de 2022 17:01
- Atualizado em 2 de junho de 2022 17:14

Superficialmente, os filmes ‘Jurassic Park’ e ‘Jurassic World’ são sobre loucos trazendo dinossauros extintos de volta à vida em nossa era, inevitavelmente causando uma catástrofe humana. Na verdade, a saga de seis filmes é uma alegoria do que acontece quando o poder – científico, econômico, militar – se presume superior às leis da natureza e, ao abusá-las, acaba causando… sim, uma catástrofe humana.

A metáfora é mais ou menos grosseira dependendo de cada filme da franquia, mas ‘Jurassic World: Domínio’ – que chega aos cinemas brasileiros amanhã, 2 – se torna o coração da história para, finalmente, colocar um fim em uma hexalogia sobre uma sociedade cuja memória coletiva é surpreendente e absurdamente curta.

Isso porque, embora ‘Jurassic Park’ e ‘Jurassic World’ seja uma das franquias cinematográficas de maior sucesso do planeta, é preciso dizer que alcançou aquela distinção no ponto de repetição derivada que aflige de forma quase contagiosa as produções contemporâneas de Hollywood: as chamadas “sequelitis” – termo em inglês para a tendência de uma obra bem recebida pelo público gerar muitas sequências inferiores – crônica, com comorbidade e nostalgia aparentemente terminal.

'Jurassic World: Domínio': a longa e triste história das más ideias
‘Jurassic World: Domínio’ está repleto de alusões aos cinco filmes anteriores (Crédito: Divulgação/Universal Pictures)

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O primeiro filme da trilogia ‘World’ é, em suma, uma sequência/reboot do primeiro filme da primeira trilogia ‘Park’, de forma semelhante à sua sequência, ‘Jurassic World: Reino Ameaçado’, que segue uma narrativa muito semelhante a ‘Jurassic Park: O Mundo Perdido’ (1997). E em cada parcela há a humanidade, tropeçando na mesma enorme pedra do tamanho de um anquilossauro.

‘Jurassic World: Domínio’ não é a sequência que rompe com a reiteração da franquia. Na verdade, sucumbe a vários dos vícios tão abusados ​​por outras franquias de seu porte, como a necessidade de forçar aparições especiais à custa de qualquer lógica narrativa satisfatória.

No entanto, ao menos tenta propor algumas ideias que ecoam com o momento que atravessamos como sociedade global, rompendo (um pouco) com a repetição dos cinco capítulos anteriores.

Curiosamente, a maioria dessas ideias é enunciada por Ian Malcolm, o matemático e teórico do caos interpretado por Jeff Goldblum em quatro dos seis filmes. Por isso também são apontamentos irônicos, pois se alguém – na narrativa ou no público – ouvisse o que o homem tinha a dizer, não estaríamos falando sobre o quão desnecessariamente longa é essa franquia.

‘Jurassic World: Domínio’ é apenas uma longa série de coincidências

A história começa logo após a destruição de Isla Nublar no final de ‘Jurassic World: Reino Ameaçado’: várias espécies de dinossauros escaparam para o mundo e começaram a se reproduzir, impactando irreversivelmente a vida cotidiana das sociedades humanas.

Remover os dinossauros da ilha é “a pior ideia na longa e triste história das más ideias”, disse certa vez o personagem de Jeff Goldblum. Aqui estamos nós, sua promessa cumprida mais uma vez no sexto filme, mas agora com dinossauros parando o trânsito, devorando pessoas a céu aberto e sendo traficados no mercado negro para fins de guerra.

É neste mundo que retomamos a vida de nossos protagonistas: Claire Dearing (Bryce Dallas Howard) luta como ativista para tentar salvar os dinossauros do mercado negro. Ela e Owen Grady (Chris Pratt) vivem nas montanhas remotas para se esconderem e juntos criarem Maisie Lockwood (Isabella Sermon), a neta/filha clonada de Benjamin Lockwood, que escapou com eles das garras do Dr. Henry Wu (BD Wong).

'Jurassic World: Domínio': a longa e triste história das más ideias
Humanos e dinossauros devem coexistir em ‘Jurassic World: Domínio’ (Crédito: Divulgação/Universal Pictures)

Do outro lado do globo, a Dra. Ellie Sattler (Laura Dern) reaparece, que agora está estudando uma estranha espécie de gafanhotos enormes que destroem qualquer plantação que apareça em seu caminho, exceto aquelas de grãos criados pela empresa de engenharia genética BioSyn. Esta última, por coincidência, também recebeu a tarefa de criar um santuário para os dinossauros.

Assim, ‘Jurassic World: Domínio’ coloca seus protagonistas e os lagartos jurássicos em rota de colisão conveniente: Ellie recruta Alan Grant (Sam Neill) para se infiltrar no santuário BioSyn (quem sabe sob qual lógica, se o homem é um paleontólogo). Enquanto isso, Claire e Owen perseguem os sequestradores que estão levando Maisie ao mesmo lugar para estudar sua composição genética (Ian Malcolm só entrará na equação mais tarde).

Em suma, existem dois grupos com dois objetivos: se infiltrar na BioSyn para obter evidências de sua trama para dominar o suprimento de alimentos do mundo e salvar a garota (em um fio narrativo que não levou a lugar nenhum em ‘Reino Ameaçado’, mas tem sua recompensa neste longa, embora ele também não contribua muito para o enredo).

O primeiro problema com ‘Jurassic World: Domínio’ é que, em sua busca para dar sentido à eventual convergência de personagens, um dos grupos faz um longo desvio para chegar lá.

Enquanto Alan e Ellie gastam grande parte do filme na BioSyn, a busca de Claire e Owen primeiro os leva a Malta, em uma sequência que faz pouco mais do que nos lembrar de um determinado personagem de uma edição anterior, adicionar um novo (que satisfaz a cota de inclusão da maneira mais descaradamente supérflua) e desencadear uma perseguição que parece algo saído da saga ‘Jason Bourne’, mas com dinossauros. É narrativamente inútil, mas também é preciso dizer que é talvez a sequência mais emocionante de todo o filme.

O segundo problema é que, em várias ocasiões, as coisas em ‘Jurassic World: Domínio’ simplesmente acontecem, sem qualquer motivação. Objetos-chave, veículos de fuga e outros personagens estão convenientemente no lugar e hora certos quando os protagonistas precisam deles, evitando qualquer lógica narrativa.

'Jurassic World: Domínio': a longa e triste história das más ideias
Nostalgia pura… e preguiça (Crédito: Divulgação/Universal Pictures)

Então, quando chega a hora de todos os personagens se encontrarem (não é spoiler, é literalmente a promessa em que ‘Jurassic World: Domínio’ é construído), a satisfação é reduzida a uma participação gloriosa por acaso, e não por uma motivação que envolve nós como espectadores. Um script preguiçoso, portanto.

Além da perseguição em Malta, o pacote inclui mais do mesmo: dinossauros, cenas tensas de furtividade e perseguições. O que faz ‘Jurassic World: Domínio’ se destacar um pouco mais do que seus antecessores é que ele coloca um foco maior em conspirações corporativas.

No entanto, é nesse fio narrativo que o filme encontra seu cinismo mais irônico.

“Seus cientistas estavam tão preocupados se poderiam ou não, que não pararam para pensar se deveriam”

Quando Michael Crichton escreveu o romance original de ‘Jurassic Park’, ele imaginou Ian Malcolm puramente para um papel expositivo. Ou seja, o objetivo de sua existência no livro era explicar os conceitos científicos e tecnológicos da trama para a compreensão do público.

Isso está muito longe do matemático carismático que mais tarde seria imortalizado por Jeff Goldblum, tornando-o um membro icônico do trio completado por Sam Neill e Laura Dern. Ao longo de toda a saga, Malcolm funcionou como uma das poucas vozes razoáveis ​​tentando inutilmente impedir a catástrofe que inevitavelmente será desencadeada pela arrogância e imoralidade humana.

‘Jurassic World: Domínio’ preserva esse papel para ele, em uma trama que tem conotações alegóricas grosseiras sobre o papel da intervenção humana – particularmente por meio de megacorporações – na criação das próximas crises climáticas e alimentares.

'Jurassic World: Domínio': a longa e triste história das más ideias
Outra cena de tensão, porém com um dinossauro maior (Crédito: Divulgação/Universal Pictures)

Ao longo da saga, a ressurreição dos dinossauros é retratada repetidamente como o suposto domínio absoluto da espécie humana sobre as leis naturais. É “poder genético” seguido por questionáveis ​​aplicações militares, comerciais e outros assuntos obscuras.

Em ‘Jurassic World: Domínio’, portanto, dinossauros e gafanhotos mutantes são um substituto para as mudanças climáticas causadas pelo corporativismo excessivo. A própria BioSyn tenta amenizar a sua imagem mostrando seu CEO, Dr. Lewis Dodgson (Campbell Scott vestido como uma imitação de Tim Cook, da Apple), explicando as aplicações médicas benéficas de sua pesquisa.

Então voltamos a Ian Malcolm, para quem a verdade é óbvia. Em um sermão, ele explica aos jovens pesquisadores que o destino do planeta está em suas mãos e que eles devem ser críticos na tomada de decisões cruciais. “Para instigar a mudança revolucionária, você tem que mudar a consciência humana”, diz ele, cunhando uma nova frase memorável.

A frase traça o arco narrativo de Malcolm pelo resto do filme, e seu pensamento é o catalisador de vários eventos. Mas fica nisso: um catalisador. O personagem, centro racional de seis longas-metragens, sugere críticas ao corporativismo, mas o que ele diz serve apenas de pretexto para, ironicamente, limitar-se a satisfazer o próprio corporativismo.

‘Jurassic World: Domínio’ é o exemplo perfeito de um produto de Hollywood descaradamente cínico: ele nos deslumbra com diálogos que sugerem grandes ideias, mas está lá apenas para tentar esconder sua preguiça narrativa. Tudo nele é uma repetição do que já foi visto em cinco filmes. Sua grande promessa é reunir seus protagonistas como pretexto para desencadear o consumo semanal de pipoca.

'Jurassic World: Domínio': a longa e triste história das más ideias
Uma cena perigosa sob um veículo capotado. Onde já vimos isso antes? (Crédito: Crédito/Universal Pictures)

E vamos lá, não se trata de fingir que um blockbuster de verão deve ser uma obra de arte grandiosa (embora eu argumente até o cansaço que o entretenimento não precisa estar em desacordo com uma proposta narrativa sólida ou minimamente ambiciosa).

Mas se uma franquia já foi esticada até a exaustão, não valeria a pena abraçar o menor vislumbre de inspiração para não nos contar a mesma velha história novamente? Ou na pré-produção devem ter pensado: “por que propor algo remotamente interessante, se basta juntar Chris Pratt com Sam Neill para fazer uma boa bilheteria?”. É a mesma condescendência para com o público que mantém a indústria de Hollywood na complacência de sua própria falência criativa.

Voltando ao paralelo de Malcolm, talvez não seja o trabalho de um blockbuster “mudar a consciência para instigar a mudança revolucionária” (podemos realmente atribuir isso a um filme de puro escapismo?). Mas pelo menos eu gostaria de não me sentir enganado quando os créditos finais rolarem. Como público, uma demanda maior por histórias melhores poderia, de fato, mudar a consciência daqueles que estão satisfeitos em fazer bilheteria sob a lei do esforço mínimo.

Pode ser uma esperança inútil, já que o produtor Frank Marshall já ameaça “uma nova era para a franquia”. “A vida encontra um caminho”, sem dúvida. Vamos ver até onde vai a longa e triste história das más ideias.

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Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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