Crítica de ‘MaXXXine’: A vingança de Judy Garland Crítica de ‘MaXXXine’: A vingança de Judy Garland

Crítica de ‘MaXXXine’: A vingança de Judy Garland

Com ‘MaXXXine’, Ti West e Mia Goth oferecem um grande fechamento para uma trilogia de terror que reflete sobre fama, exploração e feminilidade

Lalo Ortega   |  
26 de junho de 2024 16:37
- Atualizado em 8 de julho de 2024 16:32

“Por favor, eu sou uma estrela!”, soluça uma jovem Pearl (Mia Goth) em 1918, durante o clímax da primeira parte (cronologicamente) da Trilogia X, de Ti West. Ela perdeu sua única chance de ser arrastada pelo tornado da fama para algo além do arco-íris, longe de sua casa repressiva no Texas rural. Quase 70 anos depois, em MaXXXine – que chega aos cinemas brasileiros em 11 de julho –, a protagonista Maxine Minx (também Goth) alcançou algo parecido com a fama, mas que não é bem isso. Ela continua buscando, mas parece ser punida por isso.

Situado em 1985, seis anos depois de X, o capítulo final da trilogia de terror se reencontra com a protagonista em Hollywood, seu ansiado “Oz”. Mas ela não chegou lá pelo caminho amarelo da inocência, ao qual o inconsciente coletivo americano foi tão acostumado desde meados do século pelo embranquecimento católico do código Hays. É tudo menos a imagem de “garota boa” da Judy Garland imortalizada por Dorothy: Maxine é uma grande estrela do cinema adulto, e sujou as mãos de sangue para sobreviver.

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E não apenas isso, mas ela está com pressa: os 30, sentença de uma morte simbólica para as mulheres em Hollywood, pairam sobre ela. Ela sabe que tem poucas oportunidades para ser uma estrela “legítima”, então, com os tabus de sua fama a cuestas, ela faz audição para um filme de terror: A Puritana II, sequência de um sucesso de vendas em VHS. E as coisas parecem não estar indo tão mal, até que outras estrelas pornô (como ela) começam a aparecer mortas na cidade. Em plena histeria coletiva do “pânico satânico“, as associações não demoram a aparecer na mídia.

Por si mesmo, é um filme com material suficiente para ser um slasher que se sustenta sozinho. Embora seja muito mais do que isso: como conclusão da história iniciada em X e Pearl, destaca-se como a entrega mais política do conjunto, mas não se entende sem suas predecessoras. MaXXXine fecha a Trilogia X de West como uma crítica do culto à fama, e a como ela é entendida – e experimentada – em sua vertente feminina.

De Pearl a MaXXXine: o cobiçado “fator X”

O conceito no centro da trilogia – e do qual toma seu nome – é a qualidade indescritível e especial cuja elusividade lhe ganhou o nome de “fator X”: aquele “algo” que separa os talentosos daqueles que não são, aqueles cujo carisma ou talento os fará ser imortalizados nesse firmamento ao qual tantos sonham pertencer.

Cada parte da trilogia nos mostra que, fazendo honra à sua faceta algébrica, essa “X” é uma variável. Muda segundo a época e o valor que cada sonhador lhe atribui. Nos tempos da jovem e reprimida Pearl, nos anos 20, trata-se de uma mistura de carisma, beleza, e habilidade para cantar, dançar e entreter em um palco. Para Maxine, filha da liberação sexual dos 60, a fórmula vencedora tem a ver com ser bonita, mas também sexy e desinibida para ter sexo diante da câmera.

Em ambos os casos, o “fator X” é algo que se tem ou não (“os meios produzem algumas garotas como espetaculares enquanto menosprezam outras”, escreve a acadêmica em comunicação Sarah Projansky, em seu livro de 2014 Spectacular Girls: Media Fascination and Celebrity Culture). Judy Garland o teve até para dar e vender, o que lhe valeu uma vida de exploração, adições e ansiedade em nome de sua ascensão ao estrelato.

MaXXXine culmina uma trilogia que reflete sobre o ideal de fama a partir do terror (Crédito: Universal Pictures/A24)
MaXXXine culmina uma trilogia que reflete sobre o ideal de fama a partir do terror (Crédito: Universal Pictures/A24)

O “fator X” é, além disso, o bilhete para alcançar o santo graal da fama, a solução para todos os problemas na vida. A noção é reafirmada por um flashback em MaXXXine, onde a protagonista, como criança, jura fazer o que for necessário para conseguir a vida que merece. Consegue seu objetivo mediante a exploração sexual de seu corpo. A puritana, reprimida e ressentida Pearl, que não conseguiu, sobreviveria até a velhice para desenvolver uma inveja predadora, quase vampírica e assassina pela beleza libertina da jovem atriz pornô.

MaXXXine nasce da tensão resultante entre os ideais de fama de suas duas predecessoras, para argumentar que não são tão diferentes entre si. Ambas implicam, afinal de contas, que Pearl e Maxine – como tantas mulheres – têm de se tornar objetos a serem observados. De novo Projansky:

“Primeiro, os meios incessantemente olham e nos convidam a olhar para as garotas. As garotas são objetos que observamos, queiramos ou não (…). Como tal, os meios convertem as garotas em espetáculos – objetos visuais em exibição. Segundo, algumas garotas mediatizadas também são espetaculares, ou seja, fabulosas. Os feitos, habilidades atléticas, inteligência e autoestima das garotas impetuosas impressionam. Terceiro, algumas garotas são espetáculos, ou seja, escândalos. Os meios esperam com grande expectativa (…) o momento da queda em desgraça de uma celebridade feminina”.

Judy Garland foi um ícone feminino do talento inocente, jovial e promissor sob o ideal de Hollywood… até que já não foi, sepultada por uma avalanche de narcóticos e polêmicas. As protagonistas da trilogia de Ti West, Pearl e, sobretudo, Maxine, caminham essa linha tênue, com as contradições que implica ser um objeto em exibição dentro de uma sociedade com uma aguda esquizofrenia moral.

América, a esquizofrênica

Hollywood sempre foi um lugar curioso, mas em MaXXXine, Ti West destaca suas contradições – e hipocrisias. Legiões de pais de família, inflamados pelo reaganismo, protestam contra os estúdios de cinema que supostamente pervertem e lhes roubam suas filhas para filmar blasfêmias como A Puritana II. Enquanto isso, no pleno Hollywood Boulevard, as lojas de vídeos para adultos operam livremente, enquanto suas estrelas são assassinadas impunemente.

As mulheres (quando não?) estão no centro de toda a tensão política, social e cultural dos Estados Unidos dos sempre idealizados anos 80. O sexo e os corpos femininos são fichas de negociação, parâmetros de avaliação moral ou instrumentos publicitários, conforme convém. No país que consagrou e objetificou Marilyn Monroe como símbolo sexual, ignorando os lados mais complexos, sombrios – e explorados – de sua identidade, o fato de uma atriz pornô tentar ser estrela de Hollywood é recebido com incredulidade, preconceito ou franco rejeito (talvez Marilyn e Judy são dois lados de uma mesma moeda hipócrita: pelo menos se sentiam próximas em sua experiência). Viva a liberdade sexual feminina, mas não tanta, porque a polêmica assusta os investidores e os puritanos nas altas esferas do poder.

Em MaXXXine , Hollywood tem uma relação absurda com o sexo e o gênero feminino (Crédito: Universal Pictures/A24)
Em MaXXXine , Hollywood tem uma relação absurda com o sexo e o gênero feminino (Crédito: Universal Pictures/A24)

E é melhor não estragar as reviravoltas (sobretudo as do final), mas basta dizer que MaXXXine vai ao fundo dessa esquizofrenia moral com seus antagonistas masculinos. Seja pelos atores que os interpretam, pelos clássicos aos quais aludem ou pelas instituições que representam, West nos propõe reflexões sobre complexas – e às vezes contraditórias – representações de gênero na cultura popular.

Uma cena chave até apresenta o argumento de que, na gênese dos paradoxos psicológicos da sociedade americana e sua cultura popular estão Hitchcock e Psicose, com seu complexado Norman Bates (Anthony Perkins) como símbolo de uma monstruosidade cotidiana, próxima, proveniente da humanidade e não de monstros confortavelmente distanciados pela fantasia. E o país, desde então, está obrigado a procurar o monstro em outros lados, para evitar olhar-se ao espelho e ver seu perturbado sorriso.

MaXXXine e o arquétipo da final girl

Como fez nas duas entregas anteriores da trilogia, West toma emprestado de muito variadas influências do terror e do suspense para sua conclusão. Se Pearl se inspirava em clássicos de Hollywood (como O Mágico de Oz) para falar do ideal ingênuo da fama, e X se situava nos albores da pornografia independente em VHS e do slasher (nos anos de O Massacre da Serra Elétrica e Halloween); MaXXXine tem à sua disposição uma extensa história de gêneros e subgêneros do cinema de horror.

MaXXXine adota as convenções psicossexuais do giallo italiano, alude com A Puritana II ao nunsploitation (um subgênero que recorre à exploração feminina, mas também critica a moral religiosa), inclui ironias do cinema de Hitchcock e, mais uma vez, emprega o recurso da garota final, ou final girl.

Mas o filme transcende o cúmulo de suas referências. Ao expor as maneiras em que o gênero feminino está – e sempre esteve – no centro do debate cultural e político, MaXXXine convida a reflexões sobre as formas em que as mulheres são representadas em tela, sexualizadas e, de um modo ou outro, convertidas em objetos visuais. A rejeição simbólica a Theda Bara no Passeio da Fama já é bastante contundente como declaração de intenções.

Porque, afinal, o que é um símbolo sexual senão um ato de equilibrismo impossível sobre a linha tênue entre garotas espetaculares (fabulosas) e garotas espetáculos (escândalos)? Quais são as final girls – ou suas irmãs, as mulheres possuídas – senão figuras contraditórias, entre heroínas empoderadas e vítimas de fantasias punitivas e morais violentas? E qual a diferença entre a catarse do terror e o prazer da pornografia, se quem as interpreta diante da câmera se submete a ser um objeto visual em nome da fama e da validação?

Ante essas reflexões, ninguém sai ileso de MaXXXine nem da Trilogia X, afinal de contas. Nem a hipocrisia de uma sociedade moralizante, nem o cinema para adultos, nem sequer o cinema de terror e suas representações mais convencionais do gênero feminino, afinal produto de um sistema cultural patriarcal e, por definição, dominador e predador. Haverá, com um pouco de sorte e muita crítica, que replanteá-las com o tempo.

Enquanto isso, os alicerces do ideal de celebridade se erguem sobre o abuso das Judy Garland e a exploração das Marilyn Monroe do mundo, através de gerações. Enquanto a fama signifique submeter-se, converter-se em um objeto de exploração – real ou simbólico –, talvez ela seja a pior vilã de todas.

MaXXXine chega nos cinemas brasileiros em 11 de julho.

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