Zé-do-Caixão

Meu primeiro emprego foi com o Zé do Caixão

Estava nervosa pelo personagem, mas acabei conhecendo o Mojica

19 de fevereiro de 2020 20:06
- Atualizado em 20 de fevereiro de 2020 20:27

Era 2003 ou 2004, não lembro exatamente. Medrosa, como qualquer jovem de 23 anos em frente ao desconhecido, bati à porta de um apartamento na região central de São Paulo. Poucos instantes depois, um senhor de camisa clara, calça social, óculos de leitura, cigarro na mão e unhas enormes abriu a porta.

— Bem-vinda, minha filha.

Era o Zé do Caixão. Mas, se não fosse as unhas, podia ser um irmão mais novo do meu avô. 

Na época, trabalhava para o Eugênio Puppo na Heco Produções. Era o meu primeiro trabalho no meu primeiro emprego da vida, e a ideia do Puppo era fazer uma mostra sobre José Mojica Marins, um dos grandes nomes do cinema nacional, que só foi ser concretizada anos depois. Minha missão naquele dia era organizar as fotos e papéis do acervo do Zé do Caixão em pessoa. 

Se não fosse pelas unhas, podia ser um irmão mais novo do meu avô (crédito: divulgação)

Mojica – era assim que, rapidamente, passei a chamá-lo – me abraçou, mostrou a casa dele e me ofereceu café. Daí me mostrou o escritório, que era um outro apartamento no próprio prédio. O lugar era incrível, parecia um museu de cinema todo apertado. Ou, talvez, um museu sobre o próprio Zé do Caixão. Cheio de pôsteres, caixas e mais caixas. 

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Entrei em desespero, porque não ia conseguir catalogar tudo aquilo.

— Não se preocupa, eu sei onde está tudo.

Era organizado, mas da maneira dele. Mojica pediu que uma moça ajudasse com as caixas e tudo que ele mostrava me contava uma história, os causos. Ele lembrava de tudo, de todos. 

Naquela época, tinha acabado de terminar o curso de cinema. Contei que o Ozualdo Candeias, outro cineasta que tinha trabalhado com o Mojica, havia nos dado alguns rolos de 35mm já vencidos – e que a gente da faculdade tinha usado para filmar o nosso curta de conclusão de curso. Ele perguntou do nosso filme, que era de terror, e conversamos sobre as gambiarras para filmar. Disso ele entendia como ninguém. Me perguntou também se eu queria dirigir – falei que era uma produtora nata. 

— Cinema se sente. 

Nunca vou me esquecer daquelas palavras, ou daquelas poucas semanas que trabalhei ao lado dele. A lembrança que fica é a de um doce de pessoa, atenciosa e com uma memória da porra. Bem diferente do personagem.

Mas a voz era igual. 

O curta que gravamos na conclusão do curso da faculdade