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‘Obi-Wan Kenobi’ arrasta o maior problema das franquias cinematográficas

A minissérie ‘Obi-Wan Kenobi’ do Disney+ ilustra a falta de vontade dos grandes estúdios – e de seus fãs – de seguir em frente e criar algo novo

Lalo Ortega   |  
1 de julho de 2022 13:23
- Atualizado em 2 de julho de 2022 14:26

Desiludido com a queda de seu aprendiz para o lado negro, um veterano Mestre Jedi decide se exilar em um planeta remoto. Farto, ele deixa de lado a Força e se afasta de todos os conflitos da galáxia, até que o dever o alcança e ele deve se reconciliar com seu propósito.

Para quem acompanha a franquia ‘Star Wars’, esse arco narrativo descreve perfeitamente ‘Obi-Wan Kenobi’, a minissérie do Disney+ lançada em maio passado, que amplia a história do Mestre Jedi de mesmo nome (Ewan McGregor) no interlúdio entre o terceiro e o quarto episódio da saga, ‘Star Wars: A Vingança dos Sith‘ e ‘Star Wars: Uma Nova Esperança‘.

Ou seja: antes da queda para o lado sombrio de seu aprendiz, Anakin Skywalker (Hayden Christensen), e sua subsequente conversão ao Lorde Sith Darth Vader, Kenobi se exilou em Tatooine. Lá, de olho no pequeno Luke Skywalker (Grant Freely), o Mestre Jedi mantém um perfil discreto como um trabalhador vil que fica longe de problemas. Mas quando Bail Organa (Jimmy Smits) aparece para pedir sua ajuda, Kenobi deve mais uma vez empunhar seu sabre de luz.

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Essa premissa, no entanto, soa muito como uma que já vimos no universo de ‘Star Wars’ durante a era Disney. ‘Star Wars: O Despertar da Força‘, o sétimo episódio da saga (e primeiro da trilogia recente), segue um grupo de novos personagens em busca de Luke Skywalker (Mark Hamill).

O lendário Mestre Jedi se exilou no remoto planeta de Ahch-To, onde se mantém afastado dos conflitos da galáxia e renunciou à Força. O motivo: a queda de seu sobrinho e aprendiz, Ben Solo (Adam Driver) para o lado negro, tornando-se Kylo Ren. Da mesma forma, quando o passado bate à sua porta em ‘Star Wars: Os Últimos Jedi‘, Skywalker deve retornar às raízes.

Falta de originalidade? Pode ser, embora a repetição pareça ser a máxima de Star Wars como franquia desde a sua concepção (“é como poesia”, disse seu criador, George Lucas, porque “rima”). Sempre foi, e sempre será, uma história sobre a luta cíclica entre o bem e o mal através do tempo.

'Obi-Wan Kenobi' arrasta o maior problema das franquias cinematográficas
“Quando te deixei, eu era apenas o aprendiz, mas agora sou o mestre”, disse Darth Vader a Obi-Wan Kenobi no que foi a reunião original do duo (Crédito: Divulgação/Disney)

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No entanto, isso não quer dizer que não deva haver espaço para outras ideias, histórias ou pelo menos outros personagens. Mas com ‘Obi-Wan Kenobi’, Lucasfilm e Disney ilustram a incapacidade (ou é pura falta de vontade?).

Cuidado: spoilers de ‘Obi-Wan Kenobi’ abaixo.

O amor hipócrita pelo cânone

Existem, no entanto, duas diferenças cruciais entre os arcos da história de Obi-Wan na série, e os de Luke Skywalker em ‘Os Últimos Jedi’. Diferenças que encapsulam a aversão das franquias – e seus fãs – por qualquer coisa remotamente parecida com inovação.

A primeira é que a história de Kenobi tem um começo e um fim predestinados: sendo uma ponte entre a trilogia recente e a trilogia original, todos sabemos como a história deve terminar: o protagonista deve sobreviver, pois ele deve se tornar o Mestre Jedi veterano de cabeça fria que treinará Luke uma década depois.

No entanto, o velho Luke Skywalker estava entrando em território desconhecido quando ‘Os Últimos Jedi’ foi lançado, o segundo episódio de uma trilogia totalmente nova, independentemente das histórias posteriores. O futuro era uma lousa em branco, terreno fértil para levar ‘Star Wars’ em direções inteiramente novas.

E foi isso que o diretor Rian Johnson tentou, o que nos leva à segunda diferença: a recepção de ambas as histórias pelos fãs. Em sua conclusão em 22 de junho, ‘Obi-Wan Kenobi’ recebeu aclamação quase universal dos “warsies”, apelidado de “o melhor de Star Wars“, além de terem clamado por uma segunda temporada.

A resposta para ‘Os Últimos Jedi’ foi, na melhor das hipóteses, dividida. Fãs obstinados – e o próprio Hamill – rejeitaram a direção que a Lucasfilm deu ao personagem Luke, uma sombra do benevolente e otimista Cavaleiro Jedi da trilogia original.

'Obi-Wan Kenobi' arrasta o maior problema das franquias cinematográficas
A queda e redenção de Luke Skywalker é um dos melhores elementos de ‘Os Últimos Jedi’ (Crédito: Divulgação/Disney)

A decisão de encerrar a Ordem Jedi para sempre também não agradou os “warsies”, forçando o estúdio a voltar atrás em seus planos para o Episódio IX dirigido por Colin Trevorrow (intitulado ‘Duel of the Fates’, de acordo com o roteiro vazado) e trazer de volta de volta J.J. Abrams para “corrigir o curso” com o que se tornaria ‘Star Wars: A Ascensão Skywalker‘.

Mas além do assunto Luke e os Jedi, ‘Os Últimos Jedi’ tem, objetivamente, alguns problemas de roteiro. Apesar deles, no entanto, pudemos reconhecer suas ambições narrativas para o universo da franquia, que abriu as portas para desmamar a história do nome Skywalker e levar os conceitos da Força para além dos Jedi/Sith, luz/escuridão.

Todos nós sabemos como isso terminou: a reação negativa dos fãs resultou em uma justificativa tão frágil para ressuscitar o Imperador Palpatine no Episódio IX que se tornou um meme. Depois de ver várias subtramas descartadas em favor de uma maratona de fanservice, todos estão felizes que a heroína, Rey (Daisy Ridley), termine a história dando continuidade à Ordem Jedi, adotando até o nome Skywalker. A mesa está posta para a próxima trilogia.

Quando ‘A Ascensão Skywalker’ não nos contou a mesma história de sempre, incluiu inúmeras referências a outros capítulos da franquia para espremer até a última gota do fruto aparentemente infinito da nostalgia, cultivado por quase cinco décadas. ‘Obi-Wan Kenobi’ faz a mesma coisa, e o faz cometendo o sacrilégio de poluir o precioso cânone da saga.

Porque também deve ser dito: independentemente dos truques e justificativas, o fato de Obi-Wan e Vader se encontrarem novamente durante os eventos da série, bem como o fato de o mestre Jedi formar uma amizade com a pequena Leia Organa (Vivien Lyra Blair), rompe completamente com os acontecimentos de ‘Uma Nova Esperança’, o sagrado Antigo Testamento da franquia. Nele, Leia (Carrie Fisher) se dirige a Obi-Wan como um estranho, e o Lorde Sith se reúne com seu antigo mestre pela primeira vez desde o fatídico duelo em Mustafar.

'Obi-Wan Kenobi' arrasta o maior problema das franquias cinematográficas
O duelo entre Darth Vader e Obi-Wan Kenobi não deveria ter acontecido mais de uma vez (Crédito: Divulgação/Disney)

Em vez disso, quando o público conheceu o Luke desiludido e quebrado de ‘Os Últimos Jedi’, as alegações foram ao longo das linhas de “isso não é Luke Skywalker”. Os fãs já tinham um preconceito (em grande parte graças aos romances e quadrinhos do ‘Universo Expandido’, apagados do cânone quando a Disney adquiriu a Lucasfilm em 2012), e qualquer coisa que se desviasse desse conceito era uma completa afronta às suas expectativas. Essa foi uma das muitas razões pelas quais o filme foi bombardeado com críticas negativas no Rotten Tomatoes.

Por que, então, tal permissividade seletiva com certos elementos do cânone? Talvez seja porque ‘Obi-Wan Kenobi’ não desafia o público. Como crianças que preferem ouvir a mesma história repetidas vezes porque se sentem confortáveis ​​e seguras, a última produção da Lucasfilm não propõe nada de novo. Não há perigo, e todos sabemos como terminará a história, aquela com a qual crescemos e que não somos capazes de superar.

‘Obi-Wan Kenobi’: a ânsia de retornar a Tatooine e os Skywalkers

Essa rejeição à inovação, infelizmente, tem sido sintomática de toda a “era Disney” da franquia ‘Star Wars’, com talvez as únicas exceções sendo ‘Rogue One: Uma História Star Wars‘ e a série ‘The Mandalorian’. E mesmo nisso, só às vezes.

Toda a trilogia prequel e todas as séries de ‘Star Wars’ lançadas no Disney+ até agora retornam aos mesmos personagens clássicos de uma maneira ou de outra. Han Solo colocou Alden Ehrenreich no lugar do contrabandista imortalizado por Harrison Ford e toda a trilogia da sequência vive e morre pela trilogia original.

'Obi-Wan Kenobi' arrasta o maior problema das franquias cinematográficas
‘Rogue One’ é um caso satisfatório de fanservice, porque na verdade não é sobre Darth Vader (Crédito: Divulgação/Disney)

Mesmo que ‘The Mandalorian’ se afaste das lutas entre Jedi e Sith, acaba voltando para eles: como se não existisse uma galáxia literal de outros planetas e personagens, grande parte da trama se passa em Tatooine e acaba trazendo de volta rostos clássicos como Boba Fett (Temuera Robinson) e o próprio Luke Skywalker em uma versão digitalmente rejuvenescida. Até o mascote da série, Grogu, foi projetado para ser a versão mais fofa de um personagem clássico (vamos lá, quem não o chama apenas de “Baby Yoda”?).

Isso significa que ‘Star Wars’ está perdido e que ‘Obi-Wan Kenobi’ é o último prego no caixão da franquia? Dificilmente. Mesmo com sua rejeição abjeta à inovação, a série tem várias produções animadas e live-action em andamento, com mais por vir.

Há, de fato, uma nova esperança (rá!). Taika Waititi (‘Thor: Ragnarok‘), o próximo cineasta em ação na franquia, expressou seu desejo de levar a história em direções totalmente novas, longe de referências gratuitas e vazias. “Eu não acho que seria bom no universo de ‘Star Wars’ fazer um filme em que todo mundo ficasse tipo, ‘Oh! Ótimo, esse é o projeto da Millennium Falcon’ ou ‘Oh!’, essa é a avó do Chewbacca”.

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‘The Mandalorian’ apresenta uma nova história, mas não adianta muito se nos faz retornar aos mesmos personagens de sempre (Crédito: Divulgação/Disney)

Ainda não se sabe se isso será permitido pela Lucasfilm sob a direção de Kathleen Kennedy. Enquanto isso, nossa cultura popular nas telas pequenas e grandes parece estar presa em um ciclo de reciclagem interminável de ideias e franquias, onde basta incluir algumas piscadelas baratas, em vez de uma história interessante e bem escrita, para agradar os fãs.

‘Obi-Wan Kenobi’ é apenas o mais recente expoente dessa mentalidade na indústria. Temos a saudação clássica “hello there!” no final, mas a poesia de George Lucas está vazia.

Se você se interessa pelo universo de ‘Star Wars’, clique aqui e confira esta lista.

Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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