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‘Thor: Amor e Trovão’: os quadrinhos são estúpidos (e tudo bem)

‘Thor: Amor e Trovão’ brilha quando a Marvel Studios permite que Taika Waititi faça sua parte. Mas o resto já vimos antes… e está começando a ficar chato

Lalo Ortega   |  
6 de julho de 2022 12:08
- Atualizado em 8 de julho de 2022 10:16

Foi há mais de uma década que conhecemos o deus do trovão nos filmes. O diretor Kenneth Branagh (agora vencedor do Oscar por ‘Belfast‘) adaptou o herói da Marvel como uma tragédia shakespeariana de fantasia e de ficção científica, um tom que foi mantido em sua sequência.

Ele era extremamente chato, sério demais para seu próprio bem. Apesar do carisma transbordante de Tom Hiddleston, os dois primeiros longas de ‘Thor’ continuam entre as piores avaliações em todo o Universo Cinematográfico Marvel (MCU) e entre as menores bilheterias da “pré-pandemia”.

Em seguida veio o diretor neozelandês Taika Waititi, que depois de levar o herói asgardiano em direções diametralmente opostas no terceiro filme, volta a fazer o mesmo com o quarto, ‘Thor: Amor e Trovão’, que estreia nos cinemas brasileiros amanhã, 7 de julho, mas já em cartaz em sessões de pré-estreia.

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Esta nova edição – também a 29ª do MCU – vem reafirmar algumas coisas. Primeiro, que a Marvel Studios acertou em cheio com Waititi em ‘Thor: Ragnarok‘, porque o neozelandês entende um aspecto fundamental de Thor e seus amigos: que eles são ridículos. Eles são vikings espaciais que poderiam muito bem ter vindo do mundo dos ‘Power Rangers’.

'Thor: Amor e Trovão': os quadrinhos são estúpidos (e tudo bem)
Viking espacial, versão metaleiro (Crédito: Divulgação/Disney)

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Em vez de levá-los muito a sério, Waititi aceita o fato de que os quadrinhos são, muitas vezes, realmente estúpidos e decide se divertir com isso. Por isso, ‘Thor: Amor e Trovão’ é genuinamente cômico quando o diretor consegue fazer o que entende bem.

No entanto, a outra coisa que confirma a quarta aventura de Thor é que a Marvel já está muito confortável com uma fórmula, uma que começa a se sentir cansada e que, como um buraco negro, devora qualquer pitada de inventividade ou surpresa.

‘Thor: Amor e Trovão’ como uma comédia romântica introspectiva

A nova aventura de Thor (Chris Hemsworth) começa onde ‘Vingadores: Ultimato‘ deixou o personagem: a grande ameaça ao universo se foi, nosso herói não é mais o rei de Asgard (e Asgard não existe mais), os Vingadores se separaram e ele não tem namorada, então ele deixa a Terra com os Guardiões da Galáxia.

Depois de ficar em forma novamente e decidir “se encontrar”, Thor deve deixar os Guardiões para caçar um ser chamado Gorr, o açougueiro dos deuses (Christian Bale), um homem desiludido com a fé que, ao cair na posse da Necrosword, decide usá-lo para destruir todas as divindades do universo. E os Asgardianos são os próximos.

É assim que Thor, em defesa dos Asgardianos na Terra, se reencontra com sua ex, Jane Foster (Natalie Portman), que agora é portadora de seu lendário martelo, Mjölnir, que lhe confere todos os seus poderes. O que Thor não sabe é que Jane empunhou o martelo buscando a cura para seu câncer terminal.

Entre sua dupla de protagonistas e seu antagonista, o roteiro de ‘Thor: Amor e Trovão’ (escrito à mão por Waititi e Jennifer Kaytin Robinson, roteirista de ‘Unpregnant‘) coloca vários tópicos pesados ​​na mesa: não há apenas a busca pelo propósito de Thor, em vez disso temos a afronta de Gorr à divindade e Jane enfrentando sua mortalidade. Uma mistura que, no papel, deixaria Ingmar Bergman orgulhoso.

Mas, nitidamente, este é um filme que jamais explorará totalmente essas questões. No MCU, os deuses existem, eles apenas se comportam como palhaços despóticos daquele partido político em que você não votou.

O foco da história está (ou deveria estar) no humor e no próprio romance de Thor, que Hemsworth interpreta como um idiota que pouco evoluiu em uma dúzia de filmes. Claro, ele passou por muitas tragédias, mas ele se comportou basicamente da mesma maneira que o conhecemos (só que mais bem-humorado, desde que Waititi assumiu).

'Thor: Amor e Trovão': os quadrinhos são estúpidos (e tudo bem)
“Minha ex copiou meus poderes” seria um título alternativo apropriado para ‘Thor: Amor e Trovão’ (Crédito: Divulgação/Disney)

Afinal, é fundamental que os super-heróis voltem ciclicamente à mesma coisa. Mas é essa reiteração e essa falta de consequências permanentes que começa a mostrar o desgaste da fórmula da Marvel. O desejo de repetição permeia a narrativa do filme todo, e nem toda graça de Taika nos minutos iniciais pode salvar a falta de inspiração no que deveria ser um dos pontos fortes do longa: a ação.

Há um aspecto no filme em que Thor, Jane e Valquíria (Tessa Thompson) enfrentam Gorr (que, deve ser mencionado, pode convocar monstros das sombras) em uma pequena lua, situada em um ponto tão escuro do universo que até a cor escapa. A mesa está posta para um confronto visualmente inovador, dinâmico e emocionante.

O que recebemos de ‘Thor: Amor e Trovão’? A mesma coisa que vimos antes: os heróis pulam, esquivam, socam, chutam e martelam, há relâmpagos aqui e ali. Há tantos escombros, criaturas e personagens voando na tela que as cenas são avassaladoras ao invés de emocionantes. O pior pecado é a falta de consequências reais para o confronto, que no final da luta nos deixa com um anticlimático “hm”.

O resultado é um filme enredado em suas próprias intenções: temas ambiciosos que não aprofunda e humor que desaparece entre cenas de ação repetitivas e inconsequentes.

Há, é claro, outros elementos a destacar, mas já vimos todos eles antes.

‘Guardiões da Galáxia’ Vol. 2.5

Houve um tempo em que o MCU era um experimento cujos resultados positivos não eram garantidos. Apesar do sucesso inegável de ‘The Avengers: Os Vingadores‘ (o encerramento da então “Fase 1” da franquia) em 2012, Thor era o incômodo irmão fantástico do milionário da lata voadora, do mutante verde e do super soldado, heróis vindos de ficção científica. Muito extravagante para eles, mas muito sério para sua própria natureza.

Não foi até a “Fase 2” que a franquia começou a abraçar as ideias mais estranhas dos quadrinhos. Guaxinins falantes e árvores antropomórficas faziam parte do elenco de ‘Guardiões da Galáxia‘, uma ópera espacial dirigida por James Gunn, que, como Waititi mais tarde, não teve medo de se divertir com o ridículo inerente aos super-heróis, impulsionado por uma saudável dose de referências da cultura pop estadunidense e clássicos musicais dos anos oitenta.

Poderíamos argumentar que ‘Guardiões da Galáxia’ estabeleceu elementos importantes para o que se tornaria a fórmula da Marvel, que até então não eram tão comuns: referências infantis e piadas a cada oportunidade, com o resgate de músicas de rock e pop consagradas – mas um pouco esquecidas – para definir o clima do filme.

'Thor: Amor e Trovão': os quadrinhos são estúpidos (e tudo bem)
Sempre podemos escutar muito Guns n’ Roses (Crédito: Divulgação/Disney)

A prova disso foi o próprio ‘Thor: Ragnarok’, que abraçou um protagonista mais cômico, um design de produção bizarro e uma aventura espacial para sua história, musicada com Led Zeppelin ao fundo. Mesmo com algumas das marcas registradas de Waititi, a terceira aventura de Thor foi o teste piloto da fórmula definitiva.

‘Thor: Amor e Trovão’ não é diferente e, embora haja um pouco mais de liberdade para seu diretor, a verdade é que é mais do mesmo. Led Zeppelin fora, Guns n’ Roses dentro. Mesmo humor autorreferencial e outro pretexto para exibir os músculos de Chris Hemsworth (agora incluindo também o seu bumbum). Concluímos com acenos para novos personagens que podem aparecer em uma continuação futura da franquia, e é isso.

Pelo menos nas três fases anteriores essa supersaturação de referências e personagens apontava para um desfecho certo. Sabíamos que tudo levava a Thanos e as Joias do Infinito.

A fase 4 do MCU, no entanto, parece uma série de histórias desconexas e sem objetivo. Claro, um personagem específico aparece na cena pós-créditos e, com certeza, os fãs de quadrinhos saberão quem ele é. Mas como isso se encaixa no grande esquema narrativo? Alguém se importa?

Entre três filmes por ano e mais séries no Disney+, a pergunta que surge é: quando chegará o ponto em que o MCU se tornará tão vasto e difícil de acompanhar que o público começará a perder o interesse? É algo que aconteceu com os quadrinhos: eles se tornaram tão especializados e precisavam de tanto conhecimento prévio que eventualmente a Marvel teve que relançar seus personagens e começar de novo.

Apesar de seus lampejos de genialidade autoral, tanto ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura‘ quanto ‘Thor: Amor e Trovão’ começam a mostrar sinais disso. Eu gostaria que, ao invés de se preocupar tanto em estabelecer acenos para uma história que parece não ter mais direção, esses filmes pudessem ser apenas filmes: capazes de nos contar uma história engraçada, concreta e inspirada, por mais ridícula que seja.

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Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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