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Em defesa de ‘Matrix Resurrections’

O novo filme da franquia ‘Matrix’ pode ter dividido opiniões, mas também é exatamente aquilo que precisávamos – você concorde ou não

Lalo Ortega   |  
28 de janeiro de 2022 19:11
- Atualizado em 31 de janeiro de 2022 12:53

Vamos deixar algo claro desde o início: eu sei que ‘Matrix Resurrections’ – que estreou nesta sexta, 28, na HBO Max e em outras plataformas de streaming – está longe de ser um filme perfeito. Também foi um dos lançamentos de maior destaque que dividiu crítica e público nos últimos anos, e por boas razões em alguns casos. É por isso que, mesmo que não seja perfeito, é algo possivelmente melhor: ele é interessante.

Um adjetivo que, para falar a verdade, é raro e surpreendente vindo de uma sequência, em uma época em que Hollywood só parece fazer sequências, reboots e remakes derivados, com pouco ou nenhum risco criativo, para garantir uma boa bilheteria.

E, no entanto, a existência de ‘Matrix’ como uma franquia sempre foi paradoxal. A saga, e particularmente a parte original de 1999, é uma história sobre libertar a mente e se opor aos mecanismos de controle de um sistema opressor, que programa nosso modo de pensar para consumir e, por sua vez, ser consumido. Duas sequências depois, a saga criada pelas irmãs Lilly e Lana Wachowski havia se tornado, querendo ou não, o que criticava.

Antes de se tornar uma franquia, 'Matrix' transformou o que significava fazer ficção científica em Hollywood (Crédito: Divulgação/Warner Bros.)
Antes de se tornar uma franquia, ‘Matrix’ transformou o que significava fazer ficção científica em Hollywood (Crédito: Divulgação/Warner Bros.)

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Mesmo desde os estágios iniciais de seu desenvolvimento, o fato de haver um quarto filme é um reforço desses mesmos paradoxos. O que se tornaria ‘Matrix Resurrections’ começou, como o produtor James McTeigue admitiu, como um projeto da Warner Bros. que seguiria em frente com ou sem o envolvimento das Wachowskis. Que Lana tenha assumido a gestão quando o fez, motivada por um momento pessoal difícil, foi apenas produto do acaso (ou, talvez, um erro na Matrix).

Mas o que dizer de novo neste mundo? A história de Neo, Trinity e Morpheus chegou ao fim definitivo com as duas sequências (ambas lançadas em 2003): a guerra com as máquinas acabou graças ao sacrifício de Neo, e a humanidade em Zion pôde viver em paz. A liderança estava morta… e a indústria de Hollywood que a ‘Matrix’ original havia transformado mudou ainda mais nas quase duas décadas desde então.

A resposta estava no metatextual.

Cuidado, a partir daqui este texto traz spoilers da trama do filme.

Liberte sua mente… de sequelas

A primeira metade de ‘Matrix Resurrections’ é, ao mesmo tempo, um déjà vu e um mistério. Vemos vários incidentes e elementos do primeiro filme repetidos, e seguimos um Thomas Anderson (Keanu Reeves) mais uma vez preso na Matrix, que constantemente se depara com Tiffany (Carrie-Anne Moss), uma mulher idêntica a Trinity.

Por que eles estão aqui, se os vimos morrer em ‘Matrix Revolutions‘?

A explicação, que virá mais adiante, reafirma o que está acontecendo com o protagonista dentro da Matrix. Em um lampejo de gênio metatextual, Thomas Anderson se estabelece aqui não como um hacker, mas como um programador de sucesso de um videogame chamado Matrix. Isso, como veremos mais adiante, é baseado em suas memórias do que aconteceu na trilogia original, que o fazem pensar que ele é louco, e que ele suprime com pílulas azuis.

Lana Wachowski leva a piada mais longe e de forma incisiva. O parceiro de Anderson, Smith (Jonathan Groff), explica a ele que a Warner Bros., dona da empresa de videogames, está ordenando o desenvolvimento de uma sequência de Matrix, contra a vontade de seu criador.

Então vemos as reuniões criativas onde, exasperado, Anderson observa seus colegas lançarem ideias sobre o que a sequência deveria ter: mais ação, mais perseguições, coisas visualmente mais espetaculares que têm pouco a ver com o que o original queria dizer. Mas tem que ser feito, porque os executivos de terno, como os agentes do sistema, querem assim.

Objetivamente, que o amor de Neo e Trinity é o sustento da Matrix, é um dos aspectos menos justificáveis ​​de Matrix Resurrections (Crédito: Divulgação/Warner Bros.)
Objetivamente, que o amor de Neo e Trinity é o sustento da Matrix, é um dos aspectos menos justificáveis ​​de ‘Matrix Resurrections’ (Crédito: Divulgação/Warner Bros.)

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Finalmente, ‘Matrix Resurrections’ chega à explicação do que Neo e Trinity estão fazendo vivos. Após suas mortes no terceiro filme, ficamos sabendo que seus corpos foram encontrados pelas máquinas e ressuscitados. Depois de estudá-los, o programa conhecido como Analista (Neil Patrick Harris) descobriu que apagar suas memórias e reconectá-las à Matrix resultou em uma versão muito mais estável e resiliente dela.

Soa quase como um estúdio de cinema que gosta de trazer coisas mortas de volta à vida para garantir dinheiro.

‘Matrix Ressurrections’ é, em outras palavras, uma enorme metáfora de como uma obra de arte que expõe e critica pode ser assimilada pelo sistema e convertido em produto em série, despojado de seu fundo e transformado em espetáculo vazio, para se reforçar e se perpetuar.

O paradoxo é que um filme com tal calibre de produção só poderia sair de uma indústria como Hollywood. A conclusão, porém, é a mesma: é possível acordar.

‘Matrix Resurrections’ é apenas um fracasso para a própria Matrix

“A obsessão cultural em igualar o sucesso de um filme com sua bilheteria é incrivelmente prejudicial para esta indústria. Isso leva a indústria cada vez mais a fabricar produtos puros, o que é outra razão pela qual constantemente temos reinicializações. É McDonald’s. As pessoas sabem o que vão sentar para ver. Isso, inerentemente, é ruim para o cérebro.”

Essa foi a declaração de Lilly Wachowski em uma entrevista de 2015, enquanto as irmãs estavam promovendo seu filme ‘O Destino de Júpiter’. Na época, a cineasta chamou a ideia de voltar à saga Matrix de “repugnante”.

Sua irmã, sozinha, voltou para dirigir a quarta parte. E contra as esperanças da Warner Bros., o filme arrecadou apenas pouco mais de US$ 148 milhões nas bilheterias mundiais (de acordo com o Box Office Mojo), contra um orçamento de produção de US$ 190 milhões.

Em termos de sistema, é um fracasso retumbante nas bilheterias, claramente impulsionado por rolo compressor “maravilhoso”, que lançou o mais recente de sua imparável megafranquia nos cinemas uma semana antes de ‘Matrix Resurrections’ (‘Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa’ precisou de apenas um mês nos cinemas para se tornar o sexto filme de maior bilheteria da história).

Em Matrix Resurrections, Jonathan Groff: um executivo da Warner em um filme da Warner (Crédito: Divulgação/Warner Bros.)
Em ‘Matrix Resurrections’, Jonathan Groff: um executivo da Warner em um filme da Warner (Crédito: Divulgação/Warner Bros.)

Nesse sentido, ‘Matrix Resurrections’ falhou: as pessoas preferiram ir ver a sequência da franquia do Escalador de Paredes – que também termina por ser um reboot, mas também é uma sequência de duas outras franquias do super-herói. A mensagem não foi ouvida suficientemente alta (e alguns dos que ouviram preferiram compará-lo com ‘Free Guy: Assumindo o Controle’ e declará-lo o superior dos dois filmes).

Mas à sua maneira, o filme de Lana Wachowski é um triunfo. ‘Matrix Resurrections’ destaca os contratempos do fanboyismo e da cultura de fanservice. A razão pela qual nos tornamos fãs de um filme é porque ele nos surpreendeu e nos deu algo totalmente novo na primeira vez que o vimos. Odiar a sequência por ser o que sua criadora queria que fosse, e não ser o que queríamos que fosse, é tão contraditório quanto infantil.

Curiosamente, as bilheterias sombrias de ‘Matrix Resurrections’ tiveram seu lado bom. “Nós não temos um prelúdio em mente. Não temos uma sequência em mente. Não temos uma trilogia futura”, disse McTeigue em entrevista ao Collider.

As irmãs Wachowski venceram.

‘Matrix Resurrections’ segue em cartaz nos cinemas, mas também já está no streaming. Clique aqui para saber conferir outros motivos para assistir ao filme, ver o trailer ou encontrar o link para assistir na HBO Max.

Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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