Trem-Bala, Brad Pitt

‘Trem-Bala’ é carregado de boas intenções, mas descarrilha em alta velocidade

Do diretor de ‘Atômica’, o filme estrelado por Brad Pitt tenta apresentar uma história nova em um mundo dominado por sequências, mas (infelizmente) mal deve chegar na próxima estação

4 de agosto de 2022 06:00

Talvez você não se lembre, mas, antigamente, toda semana estreava nos cinemas um novo filme de um grande estúdio. “Novo” na acepção máxima do termo: tratava-se de uma história inédita, com atores famosos vivendo personagens desconhecidos, abrindo uma porta dentro da nossa imaginação. A realidade de hoje é completamente diferente, mas, nesta quinta (4), chega aos cinemas um longa-metragem que tenta resgatar essa mítica: ‘Trem-Bala‘.

Protagonizado por Brad Pitt, o filme (que tem um orçamento mediano para Hollywood, na casa dos US$ 90 milhões) ousa ao fazer o que, em outra era, foi algo comum: trazer uma história que não é parte de uma grande franquia, ou integrante de uma propriedade intelectual famosa, ainda que baseado em um livro (escrito por Kōtarō Isaka).

Sem ser parte de uma grande franquia, o maior destaque de Trem-Bala é a presença de Brad Pitt (crédito: divulgação / Sony Pictures)
Sem ser parte de uma grande franquia, o maior destaque de ‘Trem-Bala’ é a presença de Brad Pitt (crédito: divulgação / Sony Pictures)

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Não, não há nenhum herói baseado em história em quadrinhos, cena pós-créditos com teaser para um universo compartilhado, nem referência a um personagem do qual o longa é derivado. É uma aventura com começo, meio e fim, sobre um agente azarado (Pitt) que precisa roubar uma maleta cheia de dinheiro em um trem de alta velocidade no Japão. E assim começam altas aventuras, como diria o velho locutor da ‘Sessão da Tarde’.

Isso, por si só, já é um grande alívio para o espectador médio, que não vai precisar maratonar 29 filmes e oito séries para conseguir entender todas as referências.

Agora, não se engane: tirando isso, ‘Trem-Bala’ não é nada inovador. O diretor David Leitch (de ‘Atômica‘, mas também de ‘Deadpool 2‘ – que é parte da franquia ‘X-Men‘) traz das gavetas de sua escrivaninha todos os clichês de seu próprio estilo e também dos filmes de ação com classificação indicativa (nos EUA) R, que indica que menores de 17 anos devem assistir ao longa acompanhados dos pais.

Ou seja, há muita violência estilizada, ainda que sem tanto sangue. Tudo isso com uma tela pintada pelas cores azul e vermelha, marca do trabalho do diretor de fotografia Jonathan Sela (parceiro de Leitch em ‘John Wick: De Volta ao Jogo’, ‘Atômica’ e em outros trabalhos).

“A vida é trem-bala, parceiro”

David Leitch, que começou a carreira como dublê, sabe como poucos dirigir cenas de ação – e ‘Trem-Bala’ tem diversas delas, quase todas utilizando um cenário real. Nada parece de mentira, em uma época onde o fundo verde do chroma key dá o tom.

A isso, soma-se diversas referências à cultura oriental. O cineasta é um notório fã do cinema de Bruce Lee e Jackie Chan, trazendo isso para o mix de ‘Trem-Bala’. Porém, essa é uma visão estadunidense dessas referências, justamente misturando China e Japão em um caldeirão que, quando se olha com atenção, descobre-se que os seus ingredientes estão mais para água e óleo.

Com filmes como Trem-Bala e 'A Princesa', Joey King vai conquistando espaço dentro do gênero ação (crédito: divulgação / Sony Pictures)
Com filmes como ‘Trem-Bala’ e ‘A Princesa’, Joey King vai conquistando espaço dentro do gênero ação (crédito: divulgação / Sony Pictures)

Isso leva ao elefante na sala. É que no elenco você encontra diversos rostos conhecidos. Além de Pitt – que está muito divertido no papel -, o longa traz Michael Shannon (‘O Homem de Aço‘), Sandra Bullock e o trio Aaron Taylor-Johnson (‘Kick-Ass‘), Brian Tyree Henry (‘Eternos‘) e a ótima Joey King (‘A Barraca do Beijo‘), que roubam a cena.

No entanto, todos eles interpretam personagens que, na obra original, seriam japoneses – o que, na visão de muitos, seria um “whitewashing”, que é quando se apaga a presença de outras etnias e as substitui por brancos de origem europeia.

Kōtarō Isaka, autor do livro no qual a produção se baseia, se posicionou sobre o assunto – e deu a benção dele à escalação: “Não são pessoas reais, e talvez nem sejam japoneses”, disse em entrevista a The New York Times.

Pois é, ‘Trem-Bala’ driblou a necessidade de ser de uma grande franquia, mas não fugiu da “obrigação” de ter um elenco de apelo internacional (ou seja, de rostos americanos conhecidos em todo o mundo).

Esse não é o único problema. Na história, o personagem de Brad Pitt se vê no meio de um jogo de gato e rato entre assassinos, uma maleta cheia de dinheiro e pessoas em busca de vingança. Rebuscada e sem saber o momento de dosar comédia e drama, essa trama acaba se perdendo com piadas na hora errada e na forçação de barra para revelações surpreendentes.

O filme não sabe utilizar o ambiente naturalmente claustrofóbico do trem ao seu favor (crédito: divulgação / Sony Pictures)
O filme não sabe utilizar o ambiente naturalmente claustrofóbico do trem ao seu favor (crédito: divulgação / Sony Pictures)

A isso, soma-se o fato da produção não saber utilizar o ambiente – um trem, claustrofóbico por natureza – para criar realmente um diferencial único para o enredo, algo que o sul-coreano ‘Expresso do Amanhã‘, de Bong Joon Ho, faz tão bem. Acaba ficando um ar de frustração para quem queria algo realmente novo.

Vamos ver qual será o impacto de ‘Trem-Bala’ nos cinemas – ou seja, na bilheteria. Se der certo, o filme pode ele mesmo se tornar uma franquia com diversas continuações e derivados, como Leitch fez (ao lado de Chad Stahelski) com ‘John Wick’. Se der errado (o que parece mais provável), é uma nova pá de cal na tentativa de se fazer um cinema pipoca de ação que seja (um pouco) mais inédito.

Seja qual for o resultado, nós perdemos.

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