A Voz de Hind Rajab é um docudrama da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania (As 4 Quatro Filhas de Olfa), que recria os acontecimentos de 29 de janeiro de 2024 na Faixa de Gaza, quando a pequena Hind Rajab e sua família foram assassinados durante um ataque das forças de ocupação israelenses. Com atores profissionais, mas utilizando as gravações reais da ligação telefônica de Hind pedindo ajuda à Crescente Vermelha Palestina, o filme recria as horas angustiantes em que voluntários palestinos tentam contornar a burocracia dos organismos de assistência humanitária para enviar ajuda e resgatar a menina. Ben Hania consegue evitar o sensacionalismo da situação, oferecendo reflexões não apenas sobre a urgência do que Israel está fazendo ao povo palestino, mas também sobre a ineficiência dos organismos internacionais, a impotência dos voluntários e a passividade da sociedade internacional diante da crise.
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs, I'd Kick You) é uma comédia ácida sobre a maternidade, protagonizada por Rose Byrne em um dos melhores papéis de sua carreira (pelo qual ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim). A trama segue uma mãe sobrecarregada com suas responsabilidades: uma filha doente, um marido ausente por causa do trabalho, falta de sono, pacientes complicados na terapia, seu próprio terapeuta hostil, e um buraco que se abre repentinamente no teto de seu apartamento. É um filme macabramente divertido, que encontra a ironia no absurdo, na angústia e no avassalador das situações, com um surrealismo de pesadelo similar do que Eraserhead de David Lynch, e uma formidável Byrne carregando o peso emocional do filme.
Dirigido por Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto é um thriller político que fala de memória, hereditariedade e Brasil. Com Wagner Moura no papel principal, o filme mergulha em uma perseguição gradual, cheia de tensão e simbolismo, atravessando paisagens marcadas pela violência e pelo esquecimento. O roteiro trabalha a densidade emocional de um pai em fuga, enquanto evoca o passado e os fantasmas de um país ferido. Uma obra que dialoga com Retratos Fantasmas e reafirma o cinema como território de resistência e lembrança. Direto de nossa cobertura no Festival de Cannes, confira crítica completa do filme O Agente Secreto.
A Meia-Irmã Feia é uma brilhante comédia de body horror que dá uma reviravolta macabramente divertida no conto clássico da Cinderela sob a ótica de uma das irmãs más. Elvira (Lea Myren), uma jovem pouco atraente, sonha em se casar com o príncipe do reino, mas sua vida dá uma guinada quando sua mãe se casa com um viúvo (que tem uma filha linda). Ele morre na noite de núpcias e descobrem que, na verdade, ele não tinha dinheiro. Com dificuldades financeiras, a mãe decide fazer tudo o que for possível para casar Elvira com o príncipe, mas primeiro ela deve submetê-la a treinamentos e tratamentos cada vez mais brutais e dolorosos em nome da beleza. Em uma linha muito similar a A Substância, o filme reflete sobre a misoginia subjacente aos padrões de beleza e os extremos aos quais muitas pessoas são capazes de se submeter para alcançá-los, aqui literalmente violentos e representados com imagens impactantes.
Confira nossas primeiras impressões sobre o filme indicado a Palma de Ouro em Cannes 2025, Sirat.




