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‘A Fera’: Idris Elba contra a natureza em um simplório thriller de sobrevivência

Dirigido por Baltasar Kormákur (‘Evereste’), ‘A Fera’ também nos faz perguntar quais filmes valem a pena ver nos cinemas ou simplesmente esperar para assistir no streaming

Lalo Ortega   |  
11 de agosto de 2022 17:16
- Atualizado em 12 de agosto de 2022 17:54

A premissa de “humanos versus animais” é quase tão antiga quanto o próprio cinema. Tem estado conosco desde o ‘King Kong‘ original a clássicos como ‘Tubarão‘ ou ‘Jurassic Park: Parque dos Dinossauros‘, até propostas mais recentes como ‘Predadores Assassinos‘. São histórias que fascinam porque mostram a persistência do espírito humano diante das adversidades do mundo natural, brutal e desconhecido. Para este grupo chega ‘A Fera’, que estreia nos cinemas brasileiros no dia 11 de agosto.

O filme, francamente falando, não traz muita novidade para a mesa. O que não é necessariamente ruim, porque estamos diante de uma demonstração de que, às vezes, é mais eficaz contar bem a mesma história. E é bem simples no caso de ‘A Fera‘, dirigido pelo islandês Baltasar Kormákur (‘Evereste’).

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Idris Elba estrela como Nate Samuels, um médico recém-viúvo que decide levar suas filhas, Mare (Iyana Halley) e Norah (Leah Jeffries) em uma viagem à África do Sul, onde conheceu sua falecida esposa e mãe das meninas.

Lá, seu velho amigo Martin (o excelente Sharlto Copley de ‘Unabomber: Terrorista‘) leva a família em um safári por uma reserva de vida selvagem. No entanto, o grupo acaba encalhado sem como retornar à civilização ou se comunicar. Ao mesmo tempo, eles são perseguidos por um animal selvagem que parece matar sem motivo.

'A Fera': Idris Elba contra a natureza em um simplório thriller de sobrevivência
Por trás dos elementos de sobrevivência, ‘A Fera’ é a história de um pai e suas filhas (Crédito: Divulgação/Universal Pictures)

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O aspecto thriller de sobrevivência (não ação, como alguns materiais promocionais parecem sugerir) é o que Kormákur faz de melhor com ‘A Fera’. Há também um elemento de drama familiar menos bem-sucedido, no qual os membros da família devem lidar com sua dor e ressentimento pela morte da mãe: Nate e sua esposa se separaram antes de ela ser diagnosticada com câncer terminal, e seu trabalho como médico manteve ele ausente da vida de suas filhas.

O filme também apresenta outras subtramas sobre a intervenção de caçadores furtivos na reserva, bem como a suposta existência de “caçadores de caçadores”. No entanto, em um esforço para manter as coisas simples, o roteiro não se incomoda muito com eles. Isso, no entanto, funciona tanto em favor do filme quanto contra ele.

Essa simplicidade se traduz, às vezes, em uma frustrante falta de substância. Previsivelmente, o aspecto do thriller de sobrevivência é alimentado pelo remorso de um pai que quer fazer as pazes com suas filhas. É algo que é visto vindo dos primeiros 15 minutos da filmagem. O resultado é que o resto, embora emocionante, parece algo que já vimos inúmeras vezes antes.

Na verdade, o personagem de Copley solta alguns diálogos esparsos que poderiam ter sido o início de um subtexto interessante. O motivo da fera matar sem devorar sua presa, sugere o personagem, pode ser vingança contra caçadores furtivos. Há potencial aqui para se aprofundar no tema “humano versus natureza”, mas o roteiro imediatamente abandona esse enredo para seguir em outra direção.

É uma pena, porque não há razão para que um thriller didático não possa apostar em um pouco mais de substância em seu discurso, sem deixar de ser emocionante. Um filme com uma proposta semelhante, satisfatório em ambos os sentidos, foi lançado direto em streaming há apenas uma semana.

'A Fera': Idris Elba contra a natureza em um simplório thriller de sobrevivência
‘A Fera’ é um thriller de sobrevivência satisfatório, e nada mais (Crédito: Divulgação/Universal Pictures)

Para seu crédito, ‘A Fera’ segue o ditado de ‘Tubarão’ e mostra seu antagonista o tempo suficiente para ele causar uma impressão duradoura. Mesmo quando solicitado por decisões de personagens irritantemente questionáveis, as cenas de ataque são genuinamente assustadoras.

A cinematografia tem seus momentos bons e ruins. Kormákur e o fotógrafo francês Philippe Rousselot (‘Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas‘) optam por tomadas de longa duração, que funcionam muito bem em momentos de tensão porque, como espectadores, nos mantém em estado de alerta constante, procurando a ameaça no quadro.

No entanto, o recurso também é utilizado em cenas calmas de diálogos mais íntimos, operando em detrimento da emotividade dos personagens. Em vez de cortar diretamente para close-ups de suas expressões, ficamos olhando para espaços vazios durante os segundos em que a câmera viaja para frente e para trás. Claro, coisas muito piores podem ser feitas planos-sequência, mas a decisão de fazê-lo aqui é um tanto confusa.

Mesmo com esses soluços, ‘A Fera’ consegue proporcionar entretenimento satisfatório. Às vezes, sua simplicidade e manuseio da câmera trabalham contra ele, o que, em nosso atual ecossistema de estreias e telas, nos leva a questionar se o cinema era sua plataforma ideal.

‘A Fera’ é o tipo de filme que funciona melhor no streaming

Mesmo sendo um defensor da experiência do cinema (e da diversidade de propostas em seu outdoor), ao assistir ‘A Fera’, não pude deixar de pensar que não me incomodaria em nada vê-lo em alguma plataforma de streaming.

E isso não deve ser tomado como um demérito ao filme, pois o que ele se propõe a fazer, faz bem. Mas considerando sua escala, economia narrativa e nível de originalidade, parece perfeitamente agradável em telas menores.

Embora não seja público, seu orçamento de produção parece algo médio, e deve ser satisfatório, já que teve a possibilidade de se contar com o “star power” – poder de estrela, em tradução livre – de Idris Elba (o único grande nome em um elenco pequeno). A escolha de lançá-lo quando todos os blockbusters de verão já tiverem estreado é, também, completamente lógica.

Mesmo assim, parece uma produção pequena. É claramente muito superior a filmes medíocres de plano-sequência ou, então, aos longas que aspiram em ser blockbuster (e falham miseravelmente) que certas plataformas de streaming estão lançando ultimamente. Mas a linguagem e estética de ‘A Fera’ são coisas que fazem muita falta fora das telonas? Provavelmente não.

Mas isso sou só eu. Deixe o público decidir.

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Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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