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‘Agente Oculto’, da Netflix, é apenas um prólogo para ‘Barbie’

Netflix tenta criar um grande blockbuster que justifique o estabelecimento de uma franquia de ação, mas consegue apenas um filme que será esquecido em algumas semanas

22 de julho de 2022 11:46
- Atualizado em 23 de julho de 2022 22:52

Há algo errado quando se investe muitos milhões de dólares em um filme, com outros milhões na divulgação, e o principal assunto da turnê junto à imprensa é um outro longa-metragem, do estúdio concorrente. Pois é exatamente este o cenário da Netflix com ‘Agente Oculto’, produção milionária da empresa que chega hoje (22) ao streaming.

E isso quer dizer muito sobre o próprio título em questão.

É que, na prática, o longa virou uma grande campanha para Ryan Gosling responder perguntas sobre Ken, personagem que ele interpreta no surpreendentemente aguardado ‘Barbie’, de Greta Gerwig (‘Lady Bird‘) – e que será lançado nos cinemas em 2023. Basta acompanhar minimamente as manchetes dos veículos de entretenimento na última semana para perceber isso.

Ryan Gosling é a grande estrela de 'Agente Oculto' (crédito: divulgação / Netflix)
Ryan Gosling é a grande estrela de ‘Agente Oculto’ (crédito: divulgação / Netflix)

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Não se pode culpar a Netflix de não tentar, ao menos. Afinal, estamos em um mundo onde grandes estúdios – e as suas plataformas de vídeo sob demanda – apostam em propriedades pré-estabelecidas, que já tenham fãs e que façam as pessoas se envolverem com os lançamentos. Só que o caso da gigante do streaming é diferente: não há 100 anos de franquias dentro de casa, então é necessário criar algumas à toque de caixa para manter o nosso rico dinheirinho pingando todos os meses na conta deles.

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‘Agente Oculto’ entra justamente nessa busca. Baseado no primeiro livro de uma série de (até aqui) 12, o longa-metragem foi um investimento de US$ 200 milhões – algo próximo do orçamento das produções da Marvel Studios, por exemplo.

Não são apenas as cifras que estão em pé de igualdade com a Casa das Ideias. ‘Agente Oculto’ conta com a direção de Anthony e Joe Russo, além do roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely – todos envolvidos com ‘Capitão América: Guerra Civil’ e os mega blockbusters ‘Vingadores: Guerra Infinita’ e ‘Vingadores: Ultimato’.

Wagner Moura é pouco aproveitado em Agente Oculto (crédito: divulgação / Netflix)
Wagner Moura é pouco aproveitado em ‘Agente Oculto’ (crédito: divulgação / Netflix)

Tem mais: o elenco é praticamente uma foto do telescópio James Webb, com grandes estrelas como o já citado Gosling, além de Chris Evans (‘Capitão América’), Ana de Armas (‘Entre Facas e Segredos’), Billy Bob Thornton (‘Na Corda Bamba’), Regé-Jean Page (‘Bridgerton’) e o nosso Wagner Moura.

Não tinha como dar errado, né? Aí que tá: tinha. E deu.

O erro fatal de ‘Agente Oculto’

É difícil dizer o que é necessário para se criar um blockbuster, nome pelo qual são conhecidos os filmes arrasa-quarteirão que conquistam a atenção das pessoas e movimentam grandes quantias de bilheteria. Ou melhor, até há uma série de coisas que precisam ser feitas para se alcançar esse status, mas, no final do tudo, é a vontade do público que vai dizer se o objetivo foi ou não alcançado.

Não há uma receita de bolo para isso. E, acredite: já torraram muita grana em Hollywood para tentar achar essa fórmula.

Sem querer parecer engenheiro de obra pronta, ‘Agente Oculto’ comete alguns erros capitais nessa busca. Ok, a produção tem cenas de ação de tirar o fôlego, muito bem executadas e filmadas. Porém, falta criar uma conexão entre o que está em cena e o espectador.

Se você olhar bem, o bom filme – ao menos o bem-sucedido em termos comerciais – é aquele que é simples o bastante, em termos de estrutura da história, para apelar aos nossos desejos e sentimentos mais básicos e universais.

Quer exemplos? ‘Indiana Jones’ é sobre esse cara carismático que sacia nosso desejo por aventura; ‘Os Vingadores’ é sobre pessoas bem diferentes entre si que são obrigados a trabalharem juntos (enquanto salvam a humanidade); ‘Jurassic World’ e ‘Jurassic Park’ são sobre a nossa pequenez enquanto tentamos desafiar as forças da vida, da natureza e do caos; ‘John Wick’, sobre perda (da esposa e do cachorro), luto e vingança. James Bond, no fim do dia, é um personagem inspiracional: todo mundo gostaria de salvar o mundo enquanto mantém o terno impecável e o ar de fod#o.

Chris Evans é Lloyd, o grande vilão da história (crédito: divulgação / Netflix)

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Falta isso no novo longa de ação da Netflix. Na história, Gosling é um criminosos que, há 18 anos, foi tirado da prisão por Fitzroy (Thornton), um chefão da CIA que o recrutou para uma operação de agentes secretos da agência. Um belo dia, esse espião – conhecido agora como Sierra Seis – vai dar cabo de um homem malvado, quem descobrimos ser um outro agente oculto da CIA.

Confusão vai, confusão vem, e esse conflito coloca Seis em confronto com Lloyd (Evans), outro ex-integrante do programa que foi para o setor privado. Ele, então, sequestra a filha de Fitzroy – por quem Seis nutre muito carinho.

Tudo isso em um clima meio ‘Missão: Impossível’, um terço ‘James Bond 007’ e outro terço ‘La Femme Nikita’.

A dificuldade em explicar a trama já deixa relativamente claro o problema de roteiro. A quais sentimentos esse enredo apela?

“Ele [Seis] é um herói muito moderno. Ele é existencial. Ele é obcecado por Sísifo, o mito grego desse personagem preso na futilidade. É o que o separa de Bond e Bourne”, explicou Joe Russo em entrevista à EW. “É um herói do proletariado. Ele só quer terminar o trabalho e ir para casa, e não deseja romantizar de forma alguma.”

Pode ser moderno, mas será que queremos, enquanto espectadores de uma produção pipoca, ver um herói proletário e existencial?

“Ele é um personagem que luta por liberdade”, disse Joe em outro papo, ao ScreenRant. “Mas o que é interessante sobre o filme como uma parábola do bem e do mal é que todos os personagens são cinzas, mas alguns se inclinam para a humanidade e alguns se afastam da humanidade. Essa é realmente, em última análise, a temática por trás do filme.”

Insira aqui o emoji do rosto pensando: 🤔.

Anthony e Joe Russo dirigindo Chris Evans nas filmagens de 'Agente Oculto' (crédito: divulgação / Netflix)
Anthony e Joe Russo dirigindo Chris Evans nas filmagens de ‘Agente Oculto’ (crédito: divulgação / Netflix)

Em meio a todo esse debate filosófico, fica difícil nutrir simpatia por Seis ou pela agente Dani (Ana de Armas), que passa a ajudá-lo. Nem mesmo uma relação paternal entre o personagem de Gosling e a menina é explorada de forma eficiente para criar uma conexão com o espectador. Até carisma fica difícil encontrar.

Isso, junto com diálogos fracos e piadas colocadas em momentos errados, faz de ‘Agente Oculto’ uma colagem viagens pelo mundo (com muito dinheiro gasto em filmagens nas mais diversas locações, mas que pouco são exploradas) e cenas de ação que simplesmente não decolam. Em nenhum momento é possível comprar o que está em jogo ali, nem acreditar nos grandes riscos assumidos pelos personagens.

É difícil imaginar que o público se envolva o suficiente para se interessar por continuações – o que faz dessa franquia morta antes de nascer.

Netflix: entre o sucesso e o fracasso

A avaliação negativa de ‘Agente Oculto’ (no momento da publicação deste texto, a aprovação no Rotten Tomatoes está em apenas 50%) vem em uma péssima hora para a Netflix.

Já são dois trimestres com o saldo de assinaturas no vermelho, enquanto as ações da companhia caíram 42% nos últimos seis meses. O streaming já anunciou que mudou a chavinha: se antes soltava um monte de novidades todas as semanas, para preencher catálogo e sem se preocupar tanto com a qualidade, vai tentar fazer menos (e melhores) produções. Também mandou funcionários embora e está sendo mais cuidadosa com onde põe o seu dinheiro (ou, no final das contas, o nosso).

‘Agente Oculto’ é, de certa forma, uma transição nessa trajetória. O longa é o resultado de um investimento altíssimo, daqueles que talvez não tenham mais espaço daqui para frente. Por outro lado, representa a chance de fazer barulho com um lançamento de apelo mais amplo – não por menos, a empresa tem feito uma campanha de marketing e relações públicas mais tradicional, algo que não é habitual para eles.

Em um mar no qual o público esquece da maior parte das coisas que viu na Netflix, este era um filme que precisava funcionar. Quer dizer, isso pode até acontecer naquele ranking que a plataforma divulga, conquistando um número exorbitante de horas assistidas. Mas será que ‘Agente Oculto’ se tornará uma fonte de novas assinaturas para a plataforma, se espalhando no boca-a-boca e garantindo uma multidão de fãs babando por continuações e derivados, como aconteceu com ‘Stranger Things’?

Não. E digo mais: até na matemática Onze é mais que Seis.

Ryan Gosling quebrou a internet na primeira imagem como Ken do filme Barbie (crédito: divulgação / Warner Bros.)
Ryan Gosling quebrou a internet na primeira imagem como Ken do filme ‘Barbie’ (crédito: divulgação / Warner Bros.)

É por isso que, na turnê de divulgação, nenhum jornalista parecia muito interessado em perguntar sobre esse filme. Infelizmente, não há nada aqui que vá viver tempo o suficiente para garantir boas manchetes e cliques. Todos estavam, na realidade, curiosos para perguntar para Ryan Gosling sobre o figurino colorido de Ken, ou das cenas de patins ao lado de Margot Robbie em Venice Beach – imagens que tomaram a imprensa nas últimas semanas.

De alguma forma – seja em adição na pós-produção ou em um chute no escuro – a Netflix e os irmãos Russo sabiam disso. Não à toa, botaram em ‘Agente Oculto’ uma piada justamente sobre o namorado da Barbie. É o momento mais engraçado das duas horas de projeção, algo que é bem representativo.

Lá de Burbank, na famosa caixa d’água, os Irmãos Warner riem mais do que todos. Afinal, Yakko, Wakko e Dot podem ser malucos, mas não rasgam dinheiro.

Já o pessoal de Los Gatos, onde fica a sede da Netflix…

‘Agente Oculto’ já está disponível na Netflix. Para saber mais do filme, encontrar o trailer e o link para assistir online, clique aqui.

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