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Novo plano da Warner: “Marvelizar” os filmes da DC

No relatório de ganhos da Warner Bros. Discovery, o CEO David Zaslav anunciou o “plano de 10 anos” para seguir o modelo da Marvel Studios para os filmes da DC

Lalo Ortega   |  
5 de agosto de 2022 16:53
- Atualizado em 6 de agosto de 2022 17:09

“O objetivo é fazer crescer a marca DC. Fazer os personagens da DC crescerem. Mas, também, nosso trabalho é proteger a marca DC, e é isso que faremos”. Essas foram as palavras do CEO da Warner Bros. Discovery, David Zaslav, no relatório de resultados da empresa apresentado em 4 de agosto. A pauta sobre como seguirá o padrão dos filmes DC está definida.

A apresentação foi uma expressiva “batida na mesa” da nova administração e um prego no caixão para toda uma era passada.

Por um lado, marca uma mudança estratégica abrupta para a empresa, que sob a gestão do CEO anterior, Jason Kilar, pretendia aumentar a sua presença nas “guerras do streaming”. Agora é diferente: “O foco será nos lançamentos nos cinemas”, disse Zaslav, observando que haverá flexibilidade nas janelas de exclusividade nos cinemas antes que as produções do estúdio cheguem ao streaming.

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Por outro lado, Zaslav deixou claro que está procurando uma nova direção para os filmes da DC, provavelmente a propriedade intelectual mais valiosa sob o guarda-chuva do conglomerado. “Você vê Batman, você vê Superman, você vê Mulher-Maravilha, você vê Aquaman, são marcas conhecidas em todo o mundo. Nós redefinimos. Reestruturamos o negócio que vamos focar, onde haverá uma equipe com um plano de 10 anos com foco apenas em DC. Acreditamos que podemos construir um negócio muito mais sustentável.”

As declarações vieram após o cancelamento da estreia na HBO Max do filme ‘Batgirl’ (praticamente finalizado e com custo de produção próximo de 100 milhões de dólares), como medida de redução de impostos da empresa, após a separação da AT&T’s a WarnerMedia se fundirá com a Discovery, Inc.

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‘Batgirl’ foi a primeira vítima de uma mudança radical na estratégia da Warner Bros. Discovery (Crédito: Divulgação/Warner Bros.)

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Para Zaslav, produzir filmes superfaturados apenas para aumentar o streaming não faz sentido. A estratégia é clara: grandes blockbusters ou “filmes evento” com orçamentos enormes, com janelas de exclusividade nos cinemas, antes de chegar ao novo streaming da empresa (que mesclará HBO Max e Discovery+, embora ainda não se saiba se manterá algum dos dois nomes). Não haverá mais filmes de médio ou grande orçamento a serem lançados diretamente nas telas iniciais.

Mas há uma coisa que historicamente falta nos filmes da DC: direção. Ao contrário da rival Marvel Studios, cada nova produção baseada na DC Comics parece contar sua própria história, sem coesão narrativa de um filme para o outro. O que não é necessariamente uma coisa ruim por si só, mas para Zaslav, não é aceitável quando se trata de construir uma franquia. Na apresentação do relatório de resultados, o gestor fez alusão a uma nova estratégia.

“É muito semelhante à estrutura que [o ex-CEO da Disney] Alan Horn, Bob Iger e Kevin Feige construíram de forma muito eficaz na Disney”, disse Zaslav. “Vamos focar na qualidade. Não vamos lançar nenhum filme antes que esteja pronto.”

Coincidentemente, a Warner recentemente contratou Alan Horn como consultor. Walter Hamada, presidente da DC Films desde 2018, aparentemente deixará o cargo depois que ‘Adão Negro‘ lançar este ano, de acordo com o The Hollywood Reporter.

O que isso significa para o passado e o futuro dos filmes da DC?

No início de 2010, quando o Universo Cinematográfico da Marvel (MCU), como conhecemos agora, não passava de um sonho nerd, a Warner e a DC estavam atrás na corrida. A Marvel Studios provou a viabilidade de uma narrativa interligada com ‘The Avengers: Os Vingadores‘, enquanto a Warner depositou suas esperanças na visão de Zack Snyder de lançar seu universo cinematográfico com ‘O Homem de Aço‘.

Desde então, as coisas não correram muito bem para os filmes da DC. A Warner perdeu a confiança na direção de Snyder com o fracasso de ‘Batman vs Superman: A Origem da Justiça‘ (sem mencionar a complicada história de ‘Liga da Justiça de Zack Snyder‘). O estúdio acumulou grandes sucessos de bilheteria desde então, mas cada filme ficou sozinho (e até contradisse) os outros.

Novo plano da Warner: "Marvelizar" os filmes da DC
‘Liga da Justiça de Zack Snyder’, o último vestígio do fracassado “Snyderverse” (Crédito: Divulgação/Warner Bros.)

Mas também houve várias falhas e “falsas partidas”. O fracasso do primeiro ‘Esquadrão Suicida‘ acabou gerando a existência de um outro filme, ‘O Esquadrão Suicida‘, que existe desconfortavelmente no espaço ambíguo entre sequência e “reboot suave”. ‘Batman‘, estrelado por Robert Pattinson, começou seu desenvolvimento como outra parcela do “Snyderverse”, com Ben Affleck no papel principal. E o ‘Coringa‘? Sem dúvida, o filme estrelado por Joaquin Phoenix é um dos maiores sucessos do estúdio nos últimos anos, mas existe em uma continuidade separada.

O que vai mudar? Se a Warner pretende “marvelizar” os filmes da DC, a lógica sugere que todas as estéticas e narrativas terão que ser homogeneizadas em uma única continuidade, como a Marvel Studios fez com sua narrativa serializada.

O que isso significa para as sequências já confirmadas, em desenvolvimento ou até mesmo quase finalizadas da DC Films? Precisamos aguardar os próximos capítulos. ‘Adão Negro‘ e ‘Shazam! Fúria dos Deuses‘ serão lançado este ano. O problemático ‘Flash’ já está tem data definida para chegar ao público e as sequências dos blockbusters ‘Coringa’ e ‘Batman’, ainda em em fase inicial de produção, são sem dúvida muito aguardadas pelos fãs.

Para o futuro, uma estratégia viável seria o reboot suave empregado por James Gunn para ‘O Esquadrão Suicida’: pegar os elementos que funcionaram bem na primeira tentativa e mantê-los para a nova continuidade (seu filme trouxe de volta atores como Margot Robbie, Viola Davis e Joel Kinnaman, entre os poucos elementos aplaudidos da versão maltratada de David Ayer).

Novo plano da Warner: "Marvelizar" os filmes da DC
Interpretada por Margot Robbie, esta versão de Harley Quinn foi popular o suficiente para ser resgatada no reboot (Crédito: Divulgação/Warner Bros. Pictures)

O rumo dos filmes da DC não está nítido nesse aspecto. Mas não descarto ver Pattinson retornar como Batman, talvez se encontrando com Diana Prince como Gal Gadot e Jason Momoa como Arthur Curry. Barry Allen? Não duvide que Ezra Miller não retornará, considerando suas crescentes controvérsias pessoais.

Dito isto, como espectadores, a imagem é um pouco triste.

Ganha quem ganha… mas nós perdemos

A estratégia da DC de “marvelizar” as produções nos próximos 10 anos pode parecer promissora para os fãs de quadrinhos. Talvez, finalmente, possamos ver uma narrativa serializada e mais coesa que leva a um grande filme de ‘Liga da Justiça’, comparável aos dos ‘Vingadores’.

Mas isso pode significar que haverá cada vez menos espaço para produções originais de grandes estúdios, mesmo que sejam baseadas em propriedades intelectuais existentes. Porque tudo pode ser dito sobre o mais recente ‘Batman’, ‘Coringa’, ‘O Esquadrão Suicida’ de James Gunn ou a ‘Mulher-Maravilha‘ original. Eles podem ou não ter gostado. Mas eles têm visões únicas e contam histórias independentes, que não dependem de uma narrativa compartilhada ou referências infinitas entre si.

É uma pena, porque isso vai complicar o panorama para filmes que aspiram à originalidade, para nos contar boas histórias sem que o espectador tenha que ter visto vinte filmes e meia dúzia de séries para entender o que está acontecendo. Muitas dessas produções lutam – e falham – para encontrar seu público e obter rentabilidade, em uma indústria cada vez mais limitada a super-heróis e intermináveis sequências.

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Uma visão singular do Batman que pode se perder na transição (Crédito: Divulgação/Warner Bros)

Pelo menos, antes que houvesse uma diferença. O novo ‘Batman’, com suas virtudes e defeitos, era objetivamente diferente em comparação ao que o novo ‘Thor: Amor e Trovão‘ nos oferece, por exemplo.

Agora, ir ao cinema será ainda mais como escolher entre Coca-Cola e Pepsi: mesmo produto açucarado, mesmo visual, apenas um sabor ligeiramente diferente.

Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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